HIPOCRISIA

domingo, 5 de junho de 2011

 

 

HIPOCRISIA

Esboço:

I. A Palavra e Suas Definições

II. Referências e Ideias Bíblicas

III. Exemplos Bíblicos de Hipocrisia

IV. Um Emprego Filosófico Útil

V. Todos os Religiosos são Hipócritas

I. A Palavra e Suas Definições

Essa palavra vem do verbo grego que significa «replicar». O substantivo era usado para indicar «aquele que replica» e no uso e desenvolvimento desse vocábulo, veio a assumir o significado de ator, partindo da ideia de que os atores replicam uns aos outros. Finalmente, o termo passou a significar «ator» quanto a coisas sérias, até adquirir o sentido moderno de «hipócrita». Essa palavra é usada por vinte vezes no Novo Testamento (sempre nos evangelhos sinópticos), sempre em mau sentido. Lucas usou a forma verbal por uma vez (Lc 20:20), com o sentido de «fingir». As autoridades religiosas profanavam a prática religiosa, transmutando-a em uma peça de teatro, chegando ao cúmulo de atrair as multidões, que aplaudiam o espetáculo que davam. E a recompensa delas era o aplauso que recebiam.

No Antigo Testamento encontramos o termo hebraico hanep, que significa «poluído», «ímpio». A raiz dessa palavra, hnp, indica aquilo que é antagônico ao que é sagrado. Em algumas ocorrências dessa palavra, a Septuaginta traduz por hipócrita (como em Jó 34:20; 36:13), mas essa é apenas uma das traduções possíveis, não sendo o seu uso básico. Em Isaías 32:6, segundo a nossa versão portuguesa, o vocábulo hebraico khoneph é traduzido por «usar de impiedade». A raiz hebraica, acima mencionada, aparece em trechos como Jó 13:16; 15:34; 17:8; 20:5; 27:8; 34:30; 36:13; Pv 11:9 e Is 9:17. A ideia básica é a de alguém que usa de duplicidade, mostrando-se assim ímpio e insincero, culpado de levar uma vida fingida, hipócrita.

A hipocrisia consiste em fingir alguém ser aquilo que ele não é, como se estivesse representando ser melhor do que, na realidade, é. Essa é a base do falso orgulho. Alguém gostaria de ser algo significativo. Não sendo isso, o indivíduo apresenta ao público uma fachada de bondade que é falsa ou exagerada. Os sinônimos são a dissimulação, o farisaísmo, o fingimento e a falsa pretensão. O ludibrio sempre faz parte da vida ou dos atos hipócritas.

«A hipocrisia é o ato de simular qualidades de personalidade, de caráter moral e de convicções religiosas ou outras crenças que, na verdade, não estão presentes no indivíduo, o qual assume uma aparência falsa. Se o termo hipocrisia é aplicado, no uso comum, à dissimulação deliberada ou à insinceridade intencional, não deveria ser limitada somente à ideia de um ludibrio consciente. Pois esse termo pode também aludir de modo coerente, embora nem sempre bem aceito, às distorções inconscientes de algum ideal professado, às discrepâncias ou incoerências não reconhecidas que prevalecem entre aquilo que os homens dizem defender, na teoria, e a qualidade de personalidade que eles demonstram na prática diária». (E)

II. Referências e Ideias Bíblicas

Oferecemos uma completa revisão sobre as referências veterotestamentárias e seu uso, na seção I. No Novo Testamento, o termo grego upókrisis, «hipocrisia», aparece somente por sete vezes: Mt 23:28; Mc 12:15; Lc 12:1; Gl 2:13; I Tm 4:2; Tg 5:12; I Pe 2:1. O adjetivo upokritês, «hipócrita», figura por vinte vezes: Mt 6:2,5,16; 7:5; 15:7; 16:3; 22:18; 23:13-15,23,25,27,29; 24:51; Mc 7:6; Lc 6:42; 11:44; 12:56; e 13:15. Todos esses usos ocorrem nos evangelhos sinópticos, envolvendo, essencialmente, a denúncia de Jesus contra os líderes religiosos cuja espiritualidade não correspondia à ostentação deles em público.

Ideias Bíblicas:

Deus reconhece e detecta os hipócritas (Is 29:15,16); Cristo reconhecia-os e detectava-os (Mt 22:18); Deus não encontra prazer algum na hipocrisia (Is 9:17); um hipócrita não pode apresentar-se diante de Deus, esperando o seu favor (Jó 13:16); os hipócritas são cegos por sua própria vontade (Mt 23:17,19); os hipócritas são justos aos seus próprios olhos (Lc 18:11); e também apreciam a ostentação (Mt 6:2,5); e, além disso, são censuradores, condenando ao próximo (Mt 7:3-5; Lc 13:14,15); promovendo as tradições humanas, em vez da verdade divina (Mt 15:1-3); e requerem muitas práticas religiosas triviais, às quais emprestam um exagerado valor (Mt 23:23,24). Além disso, se exibem uma forma externa de piedade, não possuem a verdadeira espiritualidade (II Tm 3:5); professam a fé religiosa, mas não a praticam (Ez 33:31,32: Mt 23:3; Rm 2:17-23); falam sobre coisas grandiosas, mas seus atos não correspondem àquilo que dizem (Is 29:13; Mt 15:8). "Gloriam-se nas meras aparências (II Co 5:12); insistem em ter privilégios especiais (Jr 7:4; Mt 3:9). Outrossim, oprimem aos incapazes (Mt 23:14); apreciam ocupar lugares proeminentes (Mt 23:6,7); a adoração deles não é aceita por Deus (Is 1:11-15); procuram destruir outras pessoas com as suas calúnias (Pv 11:9). A hipocrisia está ligada à apostasia (I Tm 4:2); impede o crescimento na graça divina (I Pe 2:1). Há um «ai» pronunciado contra os líderes religiosos hipócritas (Mt 23:12); o castigo divino aguarda por esses (Js 25:34; Is 10:6; Mt 24:51).

III. Exemplos Bíblicos de Hipocrisia

Caim (Gn 4:3); Absalão (II Sm 15:7,8): os judeus, em tempos de desvio e apostasia (Jr 3:10); os fariseus (Mt 16:3); Judas Iscariotes (Mt 26:49); os herodianos (Mc 12:13,15); Ananias (At 5:1-8); Simão (At 8:13-23); até mesmo Pedro e Barnabé caíram em pecado de hipocrisia, no tocante ao tratamento que deveria ser dado aos crentes gentílicos, no começo da dispensação do evangelho, conforme nos informa Paulo, em Gl 2:13.

IV. Um Emprego Filosófico Útil

Os filósofos existenciais fornecem-nos um certo discernimento sobre a questão da hipocrisia. Eles se referem à hipocrisia com o nome de existência não autêntica. Quando alguém se amolda à opinião e às expectações públicas, em vez de seguir os ditames de sua própria consciência, então está levando uma existência não autêntica. A busca pela autenticidade é uma das principais preocupações do homem verdadeiramente justo. A Bíblia insiste em que devemos ser autênticos em nossas palavras e em nossas ações.

V. Todos os Religiosos são Hipócritas

É fácil chamarmos outras pessoas de hipócritas; e é ainda mais fácil sermos tão arrogantes que nos consideramos autênticos, enquanto todas as outras pessoas seriam destituídas de autenticidade. A verdade é que todas as pessoas religiosas, incluindo até mesmo as sinceras, e até mesmo aqueles que buscam diligentemente pela autenticidade, em certo grau, são hipócritas. Isso é verdade porque o ideal está sempre acima de nossa capacidade de realização. Além disso, a nossa tendência é tentar apresentar diante dos outros a ideia de que temos atingido melhor os ideais de sinceridade e autenticidade do que na realidade o fizemos. E não somente isso, mas também conseguimos enganar a nós mesmos, pensando que somos melhores do que, na realidade, o somos. Portanto, não somente somos hipócritas diante de nossos semelhantes, mas até mesmo diante de nós. Todavia, isso não anula qualquer genuína espiritualidade. Devemos continuar subindo na direção do ideal. A hipocrisia tem muitos níveis. Parte da inquirição espiritual consiste em ir eliminando a hipocrisia, juntamente com muitos outros defeitos de caráter, debilidades e vícios. A humildade é uma virtude, e nos ajuda a anular a hipocrisia.

Bibliografia J. M. Bentes

 

 

Fonte: EBD AREIA BRANCA

 

HIPOCRISIA

A religião do cristão: não hipócrita, mas real

 

 

A religião do cristão: não hipócrita, mas real Mt 6:1-6; 16-18

Jesus começou a falar no monte, descrevendo nas bem-aventuranças os elementos essenciais do caráter cristão, e prosseguiu indicando, através das metáforas do sal e da luz, a influência para o bem que os cristãos exercerão na comunidade, se pos­suírem esse caráter. Descreveu, então, a justiça do cristão, que deve exceder à justiça dos escribas e fariseus na aceitação de todas as implicações da lei de Deus, sem esquivar-se de coisa alguma e sem criar limites artificiais. A justiça do cristão é uma justiça sem limites. Deve ter liberdade de penetrar além dos nossos atos e palavras, até o nosso coração, pensamentos e moti­vações, e deve nos dirigir até mesmo nessas partes escondidas e secretas.

Depois, Jesus continua a ensinar sobre a "justiça". O capí­tulo 6 começa (literalmente) com "Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens". A palavra usada nos me­lhores manuscritos é dikaiosuné, a mesma de 5:6 e 20. Mas muito embora a palavra seja a mesma, a ênfase mudou de lugar. Antes, a "justiça" estava relacionada com a bondade, a pureza, a honestidade e o amor; agora, relaciona-se com práticas tais como esmolas, oração e jejum. Assim, Jesus passa da justiça moral do cristão para a sua justiça "religiosa". A maior parte das versões reconhece esta mudança de assunto. A ERAB diz: "Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens", e a BLH: "Cuidado! Não pratiquem seus deveres religiosos em público a fim de serem vistos pelos outros."

É importante reconhecer que, de acordo com Jesus Cristo, a "justiça" tem estas duas dimensões, a moral e a religiosa. Algumas pessoas falam em comportamento como se achassem que sua maior obrigação na vida cristã estivesse na esfera da ativi­dade religiosa, quer em público (frequência à igreja) ou em par­ticular (exercícios devocionais). Outros reagiram tão fortemente contra essa superenfatização da piedade, que falam de Cristia­nismo "sem religião". Para eles, a igreja é a cidade secular, e a oração um encontro cheio de amor com os seus vizinhos. Mas não há necessidade de se escolher entre a piedade e a morali­dade, entre a devoção religiosa na igreja e o serviço ativo no mundo, entre o amor a Deus e o amor ao nosso próximo, já que Jesus ensinou que a "justiça" cristã autêntica inclui as duas coisas.

Mais ainda, nas duas esferas da justiça, Jesus profere seu chamado insistente a seus discípulos para que sejam diferentes. Em Mateus 5, ele ensina que a nossa justiça deve ser maior do que a dos fariseus (porque eles obedeciam à letra da lei, en­quanto a nossa obediência deve incluir o nosso coração) e maior também (na forma do amor) do que a dos pagãos (porque eles se amam uns aos outros, enquanto o nosso amor deve incluir nossos inimigos também). Mas em Mateus 6, no que se refere à justiça "religiosa", ele traça os mesmos dois contrastes. Ele fala primeiro da ostentação religiosa e diz: Não sereis como os hipócritas (v. 5). Depois prossegue referindo-se ao formalismo mecânico dos pagãos e diz: Não vos assemelheis, pois, a eles (v. 8). Assim, novamente, os cristãos têm de ser diferentes, tanto dos fariseus quanto dos pagãos, dos religiosos e dos irreligiosos, da igreja e do mundo. Que os cristãos não devem se conformar com o mundo é um conceito familiar no Novo Testamento. O que muitas vezes passa desapercebido é que Jesus também viu (e previu) o mundanismo da própria igreja, e exortou os seus discípulos a não se conformarem tampouco com a igreja formal, constituindo, pelo contrário, uma comunidade cristã distinta em sua vida e prática, separada da religião organizada, uma ecclësiola (igrejinha) na ecclesia. A diferença essencial na reli­gião como na moralidade é que a justiça cristã autêntica não é uma simples manifestação, mas uma coisa escondida no coração.

6:1 Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles; doutra sorte não tereis galar­dão junto de vosso Pai celeste.

A advertência fundamental de Jesus é contra o praticar a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles. A primeira vista, estas palavras parecem contradizer o seu man­damento anterior: "Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam . . ." Nos dois versículos, ele fala de praticar boas obras "diante dos homens" e, em ambos, o objetivo fica declarado, isto é, ser "vistos" por eles. Mas, no primeiro caso, ele ordena que o façam, enquanto que, no outro, ele o proíbe. Como resolver esta discrepância? A contradição é apenas verbal, não substancial. A pista está no fato de Jesus falar sobre diferentes pecados. Foi nossa covardia humana que o levou a dizer: "Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens", e a nossa vaidade humana que o fez dizer que tomás­semos o cuidado de não praticar nossa piedade diante dos ho­mens. A. B. Bruce resume a questão muito bem, escrevendo que devemos "mostrar quando tentados a esconder" e "esconder quando tentados a mostrar". Nossas boas obras devem ser pú­blicas para que a nossa luz brilhe; nossa devoção religiosa deve ser secreta para não nos vangloriarmos dela. Além disso, a fina­lidade de ambas as instruções de Jesus é a mesma, isto é, a glória de Deus. Por que devemos manter secreta a nossa piedade? É para que essa glória seja dada a Deus e não aos homens. Por que devemos fazer a nossa luz brilhar e praticar abertamente as boas obras? Para que os homens possam glorificar ao nosso Pai celestial.

Os três exemplos de justiça "religiosa" apresentados por Jesus — as esmolas, a oração e o jejum — aparecem de alguma forma em todas as religiões. Destacam-se, por exemplo, no Alcorão. Certamente esperava-se de todos os judeus que dessem esmolas aos pobres, que orassem e jejuassem; e todos os judeus devotos O faziam. Evidentemente, Jesus esperava que os seus discípulos fizessem o mesmo, já que ele não começou cada parágrafo di­zendo: "Se vocês derem esmolas, se orarem, se jejuarem, então façam assim . . .", mas "Quando" vocês o fizerem . . . (vs. 2, 5, 16). Ele tomou como certo que assim os seus discípulos agiriam.

Mais ainda, este trio de obrigações religiosas expressa, num certo grau, nossa obrigação para com Deus, para com os outros e para com nós mesmos, pois dar esmolas é procurar servir ao nosso próximo, especialmente ao necessitado. Orar é buscar a face de Deus e reconhecer a nossa dependência dele. E jejuar (isto é, abster-se de alimentos por razões espirituais) é, pelo menos em parte, um modo de autonegação e autodisciplina. Jesus não levantou a questão se os seus discípulos iam se ocupar destas coisas mas, presumindo que o fariam, ensina-lhes por quê e como fazê-lo.

Os três parágrafos seguem um padrão idêntico. Em imagens pitorescas e deliberadamente humorísticas, Jesus pinta um quadro do hipócrita religioso. É o quadro da ostentação. Esse tal recebe a recompensa que deseja, o aplauso dos homens. Com este, ele contrasta o cristão, que age em segredo, e que deseja, em recompensa, tão somente a bênção de Deus, que é o seu Pai celeste e que vê em segredo.

1. A esmola cristã (vs. 2-4)

Quando, pois, deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que eles já rece­beram a recompensa. 3Tu, porém, ao dares a esmola, ignore a tua esquerda o que faz a tua direita; 4para que a tua esmola fique em secreto; e teu Pai que vê em secreto, te recompensará.

O Velho Testamento ensina muito sobre a compaixão para com os pobres. A palavra grega para esmola no versículo 2 (eleèmosuné) significa um ato de misericórdia ou piedade. Conside­rando que o nosso Deus é um Deus misericordioso, como Jesus acabou de enfatizar, "benigno até para com os ingratos e maus” (Lc 6:35, 36. cf. 5:45,48.), o seu povo deve também ser bom e misericordioso. Jesus obvia­mente esperava que os seus discípulos fossem doadores generosos. Suas palavras condenam "a egoísta sovinice de muitos", como diz Ryle.

Mas só generosidade não basta. Nosso Senhor está preocu­pado do começo ao fim deste Sermão com as motivações, com os pensamentos escondidos no coração. Em sua exposição do sexto e do sétimo mandamentos, ele mostra que ambos, o homi­cídio e o adultério, podem ser cometidos no coração, sendo que a ira injustificada é uma espécie de homicídio do coração e os olhares concupiscentes uma espécie de adultério do coração. Na questão das esmolas, ele tem a mesma preocupação sobre os pensamentos secretos. A questão não é tanto sobre o que a mão está fazendo (passando algum dinheiro ou um cheque), mas o que o coração está pensando enquanto a mão age. Há três possibilidades: ou estamos querendo o louvor dos homens, ou preservamos o nosso anonimato mas silenciosamente congratulamo-nos pelo que fizemos, ou estamos apenas desejosos da aprovação de nosso Pai divino.

Uma fome voraz pelo louvor dos homens era o pecado habitual dos fariseus. "Vós . . . aceitais glória uns dos outros", Jesus lhes disse, "e contudo, não procurais a glória que vem do Deus único" (Jo5:44.). Semelhantemente João, o evangelista, comentou: "Amaram mais a glória dos homens, do que a glória de Deus." (Jo 12:43.) Tão insaciável era o apetite deles pelos elogios humanos que prejudicava totalmente suas esmolas. Jesus ridicularizou o modo como eles as transformavam num acontecimento público. Ele descreve um fariseu pomposo a caminho do templo ou da sina­goga, onde vai depositar o seu dinheiro numa caixa especial, ou indo levar uma esmola aos pobres. Na sua frente, marcham os tocadores de trombeta, rapidamente atraindo a multidão com suas clarinadas. "Eles davam a entender, sem dúvida", comenta Calvino, "que era para chamar a atenção dos pobres, pois desculpas nunca faltam; mas era perfeitamente óbvio que buscavam os aplausos e os elogios". Realmente não importa se os fariseus às vezes agiam assim literalmente, ou se Jesus estava pintando uma caricatura engraçada. De qualquer forma, ele estava condenado a nossa ansiedade infantil por ser grandemente estimados pelos homens. Como Spurgeon disse: "Ficar com um centavo em uma das mãos e uma trombeta na outra é atitude de hipócrita."

E "hipocrisia" é a palavra que Jesus usou para caracterizar essa exibição. No grego clássico, hupokrités era, primeiro, um orador e, então, um ator. Assim, figuradamente, a palavra pas­sou a ser aplicada a qualquer pessoa que trata o mundo como se fosse um palco onde ela executa um papel. Deixa de lado a sua verdadeira identidade e assume uma identidade falsa. Já não é mais ela mesma, mas disfarça-se, personalizando alguma outra pessoa. Usa uma máscara. No teatro, não há mal algum ou mentira da parte dos atores que executam os seus papéis. É uma situação convencional. O auditório sabe que veio assistir a uma peça; não é iludido. O problema com o hipócrita religioso, por outro lado, é que deliberadamente pretende enganar as pessoas. E como um ator na sua representação (de modo que o que vemos não é a pessoa real, mas um papel, uma máscara, um disfarce), mas é totalmente diferente do ator neste sentido: participa de alguma prática religiosa, que é uma atividade real, e a transforma em algo diferente daquilo que é na realidade, isto é, numa peça faz-de-conta, numa exibição teatral diante de um auditório. E tudo é feito para receber aplausos.

É fácil ridicularizar aqueles judeus fariseus do primeiro século. Nosso farisaísmo cristão não é tão engraçado. Nós não contra­tamos uma fanfarra para tocar toda vez que contribuímos para uma igreja ou uma obra de caridade. Mas, usando a metáfora familiar, gostamos de "tocar a nossa própria trombeta". Faz bem ao nosso ego ver o nosso nome nas listas de contribuintes de obras de caridade e de mantenedores de boas causas. Caímos exatamente na mesma tentação: chamamos a atenção para a nossa esmola para sermos "glorificados pelos homens".

Dessas pessoas que buscam a glória dos homens, Jesus disse com ênfase: já receberam a recompensa. O verbo traduzido por "receberam" (apechö) era, naquele tempo, um termo téc­nico usado nas transações comerciais; significava "receber uma quantia total e dar um recibo por ela". Era frequentemente usado nos papiros. Portanto, os hipócritas que procuram aplausos não hão de recebê-los, mas "já terão recebido toda a recom­pensa". Nada mais têm a receber, nada mais que o juízo no último dia.

Tendo proibido a seus discípulos de contribuírem para os necessitados na maneira ostentosa dos fariseus, Jesus lhes diz, agora, qual a forma cristã, que é uma maneira secreta. Ele a expressa através de outra negativa: Tu, porém, ao dares esmola, ignore a tua esquerda o que faz a tua direita; para que a tua esmola fique em secreto. A mão direita é normalmente a mão da atividade. Assim, Jesus presume que vamos usá-la ao dar a nossa esmola. Então, ele acrescenta que a nossa mão esquerda não deve ficar olhando. Não é difícil captar o significado. Não só não devemos contar a outras pessoas sobre a nossa contri­buição cristã mas, num certo sentido, não devemos sequer contar a nós mesmos. Não devemos ser autoconscientes da nossa es­mola, pois essa atitude rapidamente deteriora-se em justiça própria. Tão sutil é a injustiça do coração que é possível tomar­mos passos deliberados para manter nossa esmola em segredo, e simultaneamente ficarmos pensando nisso com um espírito de autogratificação.

Seria difícil exagerar a perversidade disso, pois a esmola é uma atividade real que envolve gente real com necessidades reais. Seu propósito é aliviar o desespero dos necessitados. A palavra grega para o ato de dar esmolas, como já vimos, indica que é uma obra de misericórdia. Pois é possível transformar um ato de misericórdia em um ato de vaidade, de modo que a nossa motivação principal não seja o benefício da pessoa que recebe a oferta, mas o nosso próprio. O altruísmo foi desalojado por um egoísmo deformado.

Portanto, a fim de "mortificar" ou condenar à morte nossa vaidade iníqua, Jesus insiste conosco para que mantenhamos a nossa esmola em segredo, tanto dos outros como também de nós mesmos. "Com a frase 'ignore a tua esquerda o que faz a tua direita' ", escreve Bonhoeffer, "proclama-se a morte do velho homem", pois o egocentrismo pertence à vida do velho homem; a nova vida em Cristo é de incalculável generosidade. Naturalmente, não é possível obedecer a esta ordem de Jesus com precisão literal. Se mantemos uma contabilidade e planejamos nossas contribuições, como devem fazer todos os cristãos conscientes, temos de saber quanto estamos ofertando. Não podemos fechar os olhos ao assinarmos os nossos cheques! Não obstante, logo depois que a oferta for decidida e feita, deve­remos esquecê-la imediatamente para estarmos em harmonia com o ensinamento de Jesus. Não deveremos ficar pensando nela a fim de nos deleitarmos, nem nos orgulharmos sobre a generosidade, a disciplina ou o zelo por retidão da nossa oferta. A dádiva cristã deve ser marcada pelo auto sacrifício e pela abnegação, não pela autogratificação.

O que deveríamos procurar, quando damos aos necessitados, não ê o louvor dos homens, nem um alicerce para a nossa auto aprovação mas, antes, a aprovação de Deus. Isto implica na referência que nosso Senhor fez das mãos direita e esquerda. "Com esta expressão", escreveu Calvino, "ele quis dizer que devemos ficar satisfeitos por termos a Deus como única teste­munha". Embora possamos manter a oferta em segredo diante dos outros e, até certo ponto, de nós mesmos, não podemos es­condê-la de Deus. Nenhum segredo fica encoberto diante dele. Teu Pai que vê em segredo, te recompensará.

Algumas pessoas rebelam-se contra este ensinamento de Jesus. Elas dizem que não esperam recompensa, seja qual for, de pes­soa alguma. Mais do que isto, acham que a promessa que nosso Senhor fez de recompensar é incoerente. Como pode ele proibir o desejo do louvor dos outros ou de nós mesmos para, depois, incentivar-nos a procurar o de Deus? Naturalmente, dizem, isto só muda a forma da vaidade. Será que não poderíamos dar simplesmente pela necessidade de dar? Buscar o louvor de quem quer que seja — dos homens, do ego ou de Deus — é prejudicar o ato, acham.

A primeira razão por que tais argumentos estão errados rela­ciona-se com a natureza das recompensas. Quando as pessoas dizem que a ideia da recompensa lhes é desagradável, sempre suspeito de que o quadro que têm em mente é a concessão de prêmios numa escola, com os troféus de prata cintilando na mesa sobre o estrado e todo o mundo batendo palmas! O contraste não foi estabelecido entre a esmola secreta e a recompensa pública, mas entre os homens, que não veem nem recompensam a esmola, e Deus, que faz as duas coisas.

C. S. Lewis escreveu sabiamente em um ensaio intitulado "O Esplendor da Glória" (The Weight of Glory) o seguinte: "Não devemos ficar perturbados com os incrédulos que dizem que esta promessa de recompensa torna a vida cristã um negócio mercenário. Há diferentes tipos de recompensa. Existe a recom­pensa que não tem conexão natural com as coisas que se faz para recebê-la, e é totalmente estranha aos desejos que deveriam acompanhar aquelas coisas. O dinheiro não é a recompensa natural do amor; é por isso que dizemos que um homem é mer­cenário quando se casa com uma mulher por causa do dinheiro dela. Mas o casamento é a recompensa apropriada para quem realmente ama, e este não é mercenário quando o deseja." Do mesmo modo, poderíamos dizer que uma taça de prata não é uma recompensa muito apropriada para um escolar que estu­dou muito, mas uma bolsa para a universidade seria o ideal. C. S. Lewis assim conclui este argumento: "As devidas recom­pensas não são simplesmente adicionadas à atividade pela qual foram concedidas, mas são a própria atividade em consu­mação."

Qual é, então, a "recompensa" que o Pai celeste dá àquele que faz a sua dádiva em secreto? Não é pública nem, necessa­riamente, futura. Provavelmente a única recompensa que o ver­dadeiro amor deseja quando dá ao necessitado é ver o alívio deste. Quando, por meio de suas dádivas, o faminto é alimen­tado, o nu é vestido, o doente é curado, o oprimido é libertado e o perdido é salvo, o amor que provocou a dádiva fica satis­feito. Esse amor (que é o próprio amor de Deus expresso através do homem) traz consigo as suas próprias alegrias secretas e não espera outra recompensa.

Resumindo, nossas dádivas cristãs não devem ser feitas nem diante dos homens (na esperança de que comecem a bater pal­mas), nem diante de nós mesmos (com a nossa mão esquerda aplaudindo a generosidade da nossa mão direita), mas "diante de Deus", que vê o íntimo de nosso coração e nos recompensa com a descoberta de que, usando as palavras de Jesus, "Mais bem-aventurado é dar que receber.( At 20:35.)"

2. A oração do cristão (vs. 5 e 6)

E, quando orardes, não sereis como os hipócritas; porque gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. 6Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto, e, fechada a porta, orarás a teu Pai que está em secreto; e teu Pai que vê em secreto, te recompensará.

Neste segundo exemplo de justiça "religiosa", Jesus descreve dois homens orando. Novamente, a diferença básica é entre a hipocrisia e a realidade. Ele põe em contraste o motivo das orações e as suas recompensas.

O que ele diz sobre os hipócritas parece ótimo à primeira vista: "gostam de orar". Mas infelizmente não é da oração que eles gostam, nem do Deus a quem supostamente estão orando. Não, eles gostam de si mesmos e da oportunidade que a oração pública lhes dá de se exibirem.

Naturalmente, a disciplina da oração regular é uma coisa boa; todos os judeus devotos oravam três vezes por dia, como Daniel (Dn 6:10.). E não havia nada de errado em ficar de pé para orar, pois era a posição costumeira dos judeus para isto. Nem estavam necessariamente errados quando oravam nos cantos das praças ou nas sinagogas, se sua motivação fosse acabar com a segre­gação da religião e expressar que reconheciam Deus estar pre­sente mesmo fora dos lugares santos, isto é, na vida secular cotidiana. Mas Jesus desmascarou as suas verdadeiras moti­vações, quando ficavam de pé na sinagoga ou nas ruas com as mãos erguidas para os céus, a fim de serem vistos dos homens. Por trás da sua piedade, espreitava o seu orgulho. O que real­mente desejavam era o aplauso. E o conseguiam. "Já receberam a recompensa."

O farisaísmo religioso não está morto. A acusação de hipo­crisia tem sido jogada inúmeras vezes sobre nós, os frequentadores de igrejas. É possível ir à igreja pelos mesmos motivos errados que levavam o fariseu à sinagoga: não para adorar a Deus, mas para obter uma reputação de piedade. É possível vangloriar-nos de nossas devoções particulares pelo mesmo motivo. O que se destaca é a perversidade de toda prática hipócrita. Dar louvor a Deus, tal como dar esmolas aos homens, é um ato autêntico por si só. Um outro motivo qualquer destrói os dois. Degrada o serviço prestado a Deus e aos homens a uma espécie desprezível de autosserviço. A religião e a caridade trans­formam-se em uma exibição. Como podemos fingir que estamos louvando a Deus, quando, na realidade, estamos preocupados com o louvor dos homens?

Como, então, os cristãos devem orar? Entra no teu quarto, e, fechada a porta, orarás, disse Jesus. Devemos fechar a porta para não sermos perturbados e distraídos, mas também para fugir aos olhos dos homens e para ficarmos a sós com Deus. Só então podemos obedecer à ordem seguinte do Senhor: Orarás a teu Pai que está em secreto, ou, como a Bíblia de Jerusalém esclarece: "que está naquele lugar secreto". Nosso Pai está lá, à nossa espera. Nada destrói mais uma oração do que olhares furtivos para os espectadores humanos, como também nada a enriquece mais do que o senso da presença de Deus. Pois ele não vê a nossa aparência externa, apenas o coração; não a pessoa que está orando, apenas o motivo por que o faz. A essência da oração cristã é buscar a Deus. Por trás de toda oração verda­deira está a conversa com Deus, que se inicia assim:

"Ao meu coração me ocorre: Buscai a minha presença; Buscarei, pois, Senhor, A tua presença." Sl 27:8

Nós o buscamos para reconhecê-lo tal como ele é, Deus, o Cria­dor; Deus, o Senhor; Deus, o Juiz; Deus, nosso Pai celestial através de Jesus Cristo, nosso Salvador. Desejamos encontrá-lo no lugar secreto a fim de nos ajoelharmos diante dele em hu­milde adoração, amor e confiança. Então, Jesus prossegue, "teu Pai que vê em secreto, te recompensará." R. V. G. Tasker destaca que a palavra grega para "quarto" no qual devemos nos retirar para orar (tameion) "era empregada para designar a sala-depósito onde podiam guardar-se os tesouros". A impli­cação pode ser, então, que "já existem tesouros à sua espera" quando for orar. Naturalmente, as recompensas secretas da oração são tantas, que não se poderiam enumerar. Nas palavras do apóstolo Paulo, quando clamamos "Aba, Pai", o Espírito Santo dá testemunho ao nosso espírito de que realmente somos filhos de Deus, e recebemos forte certeza de sua paternidade e amor (Rm 5:5; 8:16.). Ele nos ilumina com a luz do seu rosto e nos dá a paz (Nm 6:26). Ele refrigera a nossa alma, satisfaz a nossa fome, mitiga a nossa sede. Sabemos que não somos mais órfãos, porque o Pai nos adotou; não somos mais filhos pródigos, porque fomos per­doados; não estamos mais perdidos, porque voltamos para casa.

A ênfase de nosso Senhor sobre a necessidade do segredo não deve ser levada a extremos. Interpretá-lo com literalismo rígido seria incorrer no próprio farisaísmo contra o qual ele está nos advertindo. Se todas as nossas orações fossem mantidas em segredo, teríamos de desistir de ir à igreja, de orar em família e nas reuniões de oração. Sua referência aqui é à oração parti­cular. As palavras gregas estão no singular, como indica a ERAB: "Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto, e, fechada a porta, orarás a teu Pai." Jesus ainda não falara sobre a oração pública. Quando o faz, diz-nos para orarmos no plu­ral, "Nosso Pai", e ninguém pode fazer esta oração sozinho, em segredo.

Em lugar de ficarmos preocupados com a técnica do sigilo, precisamos lembrar-nos de que o propósito da ênfase de Jesus sobre o "segredo" na oração é purificar nossas motivações. Assim como devemos dar nossas ofertas com amor genuíno pelas pes­soas, também devemos orar com genuíno amor a Deus. Jamais deveríamos usar tais exercícios como um piedoso disfarce para o narcisismo.

3. O jejum do cristão (vs. 16-18)

Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos ho­mens que jejuam. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa,17Tu porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto; 18com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e, sim, ao teu Pai em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.

Os fariseus jejuavam "duas vezes por semana” (Lc 18:12.), às segundas e às quintas-feiras. João Batista e seus discípulos também jejua­vam regularmente, até mesmo "com frequência", mas os discí­pulos de Jesus não jejuavam (Mt 9:14; Lc 5:33.). Por que então, nestes versículos do Sermão do Monte, Jesus não só esperava que seus segui­dores jejuassem, mas também deu instruções sobre como fazê-lo? Eis aqui uma passagem comumente ignorada. Suspeito que alguns de nós vivemos nossa vida cristã como se estes versículos tivessem sido arrancados de nossas Bíblias. A maioria dos cris­tãos destaca a necessidade da oração diária e da contribuição sacrificial, mas poucos insistem no jejum. O Cristianismo evan­gélico, em particular, cuja ênfase característica está na religião interior, do coração e do espírito, tem dificuldade em render-se a uma prática física exterior como o jejum. Não é um hábito do Velho Testamento, perguntamos, ordenado por Moisés para o Dia da Expiação, e exigido após o retorno do exílio da Babi­lônia em outros dias do ano, mas agora revogado por Cristo? Não vieram perguntar a Jesus: "Por que os discípulos de João e os discípulos dos fariseus jejuam, mas os teus discípulos não jejuam?" E o jejum não é uma prática católico-romana, a ponto de a igreja medieval elaborar um calendário sofisticado de "dias de festa" e "dias de jejum"? Não está também associado a um ponto de vista supersticioso da missa e da "comunhão em jejum"?

Podemos dizer "sim" a todas estas perguntas. Mas é fácil sermos seletivos em nosso conhecimento e uso das Escrituras e da história da Igreja. Eis alguns outros fatos que devemos considerar: o próprio Jesus, nosso Senhor e Mestre, jejuou por quarenta dias e quarenta noites, no deserto; em resposta à per­gunta que o povo lhe fez, disse: "Dias virão ... em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias eles (os meus discípulos) hão de jejuar. (Mt 9:15)" No Sermão do Monte ele nos disse como jejuar, pressupondo que o faríamos. E em Atos e nas cartas do No­vo Testamento, temos diversas referências aos apóstolos jejuando. Portanto, não podemos ignorar o jejum como se fosse uma prática do Velho Testamento revogada no Novo, ou como uma prática católica rejeitada pelos protestantes.

Primeiro, então, o que é o jejum? Falando estritamente, é uma total abstenção de alimento. Mas pode ser legitimamente ampliado para uma abstenção parcial ou total, durante períodos de tempo mais curtos ou mais longos. Daí, naturalmente, vem o nome da primeira refeição do dia, "desjejum", uma vez que "quebramos o jejum" do período da noite, quando não come­mos nada.

Não temos dúvidas de que, nas Escrituras, o jejum se relacio­nava de diversos modos com a renúncia e a autodisciplina. Em primeiro lugar e principalmente, "jejuar" e "humilhar-se diante de Deus" são termos virtualmente equivalentes (por exemplo, Sl 35:13; Is 58:3, 5). Às vezes era uma expressão de penitência por pecados passados. Quando as pessoas estavam profunda­mente amarguradas por seu pecado e culpa, choravam e jejua­vam. Por exemplo, Neemias reuniu o povo "com jejum e pano de saco" e "fizeram confissão dos seus pecados"; os habitantes de Nínive arrependeram-se quando Jonas pregou, proclamaram um jejum e vestiram-se de pano de saco; Daniel buscou a Deus "com oração e súplicas, com jejum, pano de saco e cinza", orou ao Senhor seu Deus e fez confissão dos pecados do seu povo; e Saulo de Tarso, depois de sua conversão, foi levado a penitenciar-se de sua perseguição a Cristo, pois durante três dias não comeu nem bebeu. (Ne 9:1, 2; Jn 3:5; Dn 9:2ss; 10:2ss; At 9:9.)

Às vezes, mesmo hoje em dia, quando o povo de Deus está convencido do pecado e é levado ao arrependimento, não é coisa fora de propósito que, em sinal de penitência e tristeza, chore e jejue. A homília anglicana intitulada "Das Boas Obras, e do Jejum" dá a entender que esse é o modo de aplicarmos a nós mesmos a palavra de Jesus: "Dias virão em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar." Refere-se a Cristo, o noivo, que, pode-se dizer, está "conosco" na festa do casamento, quan­do nos regozijamos nele e na sua salvação. Mas o noivo pode ser "tirado" e a festa interrompida quando somos oprimidos pela derrota, pela aflição e pela adversidade. "Então é a hora adequada", diz a homília, "para o homem humilhar-se diante do Deus Todo-Poderoso, jejuando, chorando e gemendo pelos seus pecados, com um coração contrito."

Não devemos, entretanto, nos humilhar diante de Deus apenas em arrependimento por pecados passados, mas também na dependência dele para a misericórdia futura. E aqui, novamente, o jejum pode expressar a nossa humildade diante de Deus. Pois se "o arrependimento e o jejum" andam juntos nas Escrituras, "a oração e o jejum" são ainda mais frequentemente reunidos. Não constitui uma prática regular, pois nem sempre jejuamos quando oramos, mas algo ocasional e especial, quando preci­samos buscar a Deus para orientação ou bênção especial e, en­tão, nos abstemos do alimento e de outras distrações para fazê-lo. Assim, Moisés jejuou no monte Sinai imediatamente depois que foi renovada a aliança pela qual Deus aceitou a Israel como seu povo; Josafá, vendo que os exércitos de Moabe e Amom avançavam sobre ele, "se pôs a buscar ao Senhor; e apregoou jejum em todo o Judá"; a rainha Ester, antes de arriscar a sua vida apresentando-se diante do rei, insistiu com Mordecai que reunisse os judeus e que jejuassem por ela, enquanto ela e suas criadas faziam o mesmo; Esdras proclamou um jejum antes de conduzir os exilados de volta a Jerusalém, "para lhe pedirmos jornada feliz para nós, para nossos filhos e para tudo o que era nosso"; e, como já mencionamos, nosso Senhor Jesus jejuou exatamente antes de começar o seu ministério público; e a igreja primitiva seguiu lhe o exemplo; a igreja de Antioquia jejuou antes de Paulo e Barnabé serem enviados em sua primeira viagem missionária; e eles próprios, antes de designar anciãos em cada nova igreja que iam organizando (Êx 24:18; 2Cr 20:lss; Et 4:16; Ed 8:21ss; Mt 4:l,2; At l3:l-3; 14:23.). São evidências claras de que empreendimentos especiais exigem orações especiais, e que orações especiais envolvem o jejum.

Ainda há outro motivo bíblico para o jejum. A fome é um dos apetites básicos do homem, e a gula um pecado capital. Portanto, "o domínio próprio" não tem significado se não incluir o controle de nossos corpos, e é impossível sem a autodisciplina. Paulo usa o atleta como exemplo. Para participar dos jogos este tem de estar fisicamente apto, e por isso treina. Seu treinamento inclui a disciplina de um regime alimentar adequado, sono e exercí­cios: "Todo atleta em tudo se domina". E os cristãos parti­cipantes da competição cristã devem fazer o mesmo. Paulo escreve sobre "esmurrar" o seu corpo (deixando-o todo roxo) e sobre subjugá-lo (conduzindo-o como um escravo) (1Co 9:24-27). Isto não se refere ao masoquismo (sentir prazer na dor), nem ao falso ascetismo (tal como usar uma camisa áspera ou dormir sobre uma cama de pregos), nem a uma tentativa de ganhar mérito como os fariseus no templo (Lc 18:12.). Paulo rejeitaria todas essas ideias, e nós também. Não temos motivos para "punir" nossos corpos, pois são criação de Deus; mas devemos discipliná-los para que nos obedeçam. E o jejum, sendo uma abstinência voluntária de alimento, é uma forma de aumentar o nosso autocontrole.

Uma outra razão para o jejum poderia ainda ser mencionada, isto é, deliberadamente deixar de participar do que poderíamos comer para partilhá-lo (ou o seu preço) com os subnutridos. Temos apoio bíblico para esta prática. Jó podia dizer que não comeu "o que os pobres desejavam", pois o partilhou com órfãos e viúvas (31:16ss). Em contraste, quando, através de Isaías, Deus con­denou o jejum hipócrita dos habitantes de Jerusalém, disse que eles procuravam satisfazer o seu próprio prazer, oprimindo seus empregados no dia em que jejuais. Isto significava, em parte, que não havia correlação entre suas mentes e suas ações, entre o alimento a que renunciavam e a necessidade material dos seus empregados. A religião deles era sem justiça ou caridade. Por isso Deus disse: "Não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade . . . deixes livres os oprimidos . . .? . . . Não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desabrigados . . .?" (58:lss.) Jesus deu a entender alguma coisa parecida quando falou do rico fazendo festas suntuosas todos os dias, enquanto o mendigo jazia à sua porta, desejando ser alimentado com as migalhas que caíam de sua mesa (Lc 16:19-31.).

Não é difícil encontrar outras aplicações mais atualizadas. No século dezesseis, a Inglaterra abstinha-se de carne em dias determinados e comia peixe em seu lugar, não por prescrição da Igreja mas do Estado, a fim de ajudar a manter "as cidades pesqueiras que bordejavam o mar" e, assim, reduzir "o preço dos gêneros alimentícios e assim ajudar na manutenção dos pobres". Nos nossos dias, o desespero de milhares de famintos nos países em desenvolvimento é trazido diariamente para as telas de nossos aparelhos de TV. Passar ocasionalmente (ou, melhor, regularmente) com uma refeição mais frugal, ou deixar de tomar uma refeição uma ou duas vezes por semana, e sobre­tudo evitar o excesso de peso e o comer demais são formas de jejum que agradam a Deus porque expressam um sentimento de solidariedade com os pobres.

Portanto, por arrependimento ou por oração, por autodisciplina ou por amor solidário, temos boas razões bíblicas para o jejum. Sejam quais forem as nossas razões, Jesus assumiu que o jejum teria lugar na vida cristã. Ele se preocupou com a nossa contribuição, com a nossa oração e com o nosso jejum para que nós não façamos como os hipócritas, que chamavam a atenção para si mesmos. Eles costumavam desfigurar o rosto e se mos­travam contristados. A palavra traduzida por "desfigurar" (aphanizo) significa literalmente "fazer desaparecer" e portanto "tornar invisível ou irreconhecível". Eles provavelmente negli­genciavam a higiene pessoal, ou cobriam a cabeça com panos de saco, ou talvez passavam cinza no rosto para ficarem mais pálidos, mais abatidos, mais tristes e, em consequência, visivel­mente "santos". Tudo isso para que o seu jejum fosse visto e conhecido de todos. A admiração dos que passavam por eles seria a única recompensa obtida. "Mas quanto a vocês, meus discípulos", Jesus prosseguiu, quando jejuarem, unjam a cabeça e lavem o rosto, isto é, "penteiem o cabelo e lavem o rosto". Jesus não estava recomendando nada fora do comum, como se agora eles tivessem de assumir uma expressão de alegria espe­cial. Pois, como Calvino comentou acertadamente, "Cristo não nos afasta de um tipo de hipocrisia para nos levar a outro". Ele presumiu que eles se lavavam e se penteavam todos os dias e, nos dias de jejum, fariam como de costume para que ninguém suspeitasse que estavam jejuando. Então, novamente, teu Pai, que vê em segredo, te recompensará. O propósito do jejum não é fazer propaganda de nós mesmos, mas disciplinar-nos; não obter uma reputação, mas expressar a nossa humildade diante de Deus e a nossa preocupação com os outros que estão pas­sando necessidade. Se esses propósitos forem cumpridos, se­remos bem recompensados.

Examinando estes versículos, fica evidente que Jesus esteve fazendo o contraste entre duas alternativas de piedade, a dos fariseus e a cristã. A piedade dos fariseus é ostentosa, motivada pela vaidade e recompensada pelos homens. A piedade cristã é secreta, motivada pela humildade e recompensada por Deus.

Para assimilarmos a alternativa ainda mais claramente, seria útil examinar a causa e o efeito de ambas as formas. Primeiro, o efeito. A religião hipócrita é perversa porque é destrutiva. Vimos que a oração, a contribuição e o jejum são todas ativi­dades autênticas por si mesmas. Orar é buscar a Deus, dar é servir aos outros, jejuar é disciplinar-se. Mas o efeito da hipo­crisia é destruir a integridade destas práticas, transformando cada uma delas em oportunidades de auto exibição.

Qual é, então, a causa? Se pudermos isolar isto, poderemos também encontrar o remédio. Embora um dos refrãos desta passagem seja "diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles", não é com os homens que o hipócrita fica obcecado, mas consigo mesmo. "Em última análise", escreve o Dr. Lloyd-Jones, "nosso único motivo para agradar aos homens que nos rodeiam é agradar a nós mesmos". O remédio, portanto, é óbvio. Precisamos ter tal consciência de Deus que deixemos de ser autoconscientes. E é nisto que Jesus se concentra.

Talvez eu possa explicar isso dizendo que o absoluto é algo impossível para qualquer um de nós. É impossível fazer, dizer ou pensar alguma coisa sem a presença de espectadores, pois, mesmo quando nenhum ser humano está presente, Deus está nos vendo; não como uma espécie de policial celeste "bisbilhotando" a fim de nos pegar, mas como o nosso amoroso Pai celeste, que sempre está procurando oportunidades para nos abençoar. Portanto, a pergunta é: que espectadores nos são mais importantes, os terrestres ou o celeste, os homens ou Deus? O hipócrita realiza seus rituais "com o fim de ser visto pelos ho­mens". O verbo grego é theathènai. Isto é, estão em um teatro, representando. Sua religião é um espetáculo público. O ver­dadeiro cristão também está consciente de que está sendo obser­vado, mas, para ele, o auditório é Deus.

Mas por que, alguém pode perguntar, auditórios diferentes provocam representações diferentes? A resposta é certamente a seguinte: podemos blefar diante de um auditório humano; ele pode ser iludido pela nossa representação. Podemos enganá-lo, dando a impressão de que somos genuínos em nossas dádivas, nossas orações, nosso jejum, quando na realidade estamos apenas representando. Mas de Deus não se zomba; não podemos enganar a Deus. Ele olha para o coração. Por isso, qualquer coisa que façamos para sermos vistos pelos homens somente degrada o nosso ato, enquanto que fazê-lo para ser visto por Deus enobrece-o.

Por isso, devemos escolher nosso auditório com cuidado. Se preferimos espectadores humanos, perderemos nossa integridade cristã. O mesmo acontecerá se nós mesmos nos tornarmos o nosso auditório. Parafraseando Bonhoeffer: "É ainda mais pernicioso se eu mesmo me transformar no espectador de minha representação na oração ... Eu posso apresentar um show muito bonito para mim mesmo, na intimidade do meu próprio quar­to." Devemos preferir que Deus seja o nosso auditório. Como Jesus observava as pessoas que colocavam suas ofertas no tesouro do templo (Mc l2:41ss.), assim Deus nos observa quando ofertamos; quando oramos e jejuamos em secreto, ele está ali, no lugar secreto. Deus odeia a hipocrisia, mas ama a realidade. É por isso que, apenas quando estamos conscientes de sua presença, a nossa dádiva, a nossa oração e o nosso jejum são reais.

 

Bibliografia J. R. W. Stott

Fonte: EBD AREIA BRANCA

 

 

 

A religião do cristão: não hipócrita, mas real

FARISEUS

 

 

FARISEUS

Esboço:

I. O Nome e Descrições

II. História e Caracterização Geral

III. Doutrinas Distintivas

IV. Denúncias da Parte de Jesus e Pontos Positivos

I. O Nome e Descrições

Os Fariseus: essa palavra se deriva do vocábulo hebraico que significa «separados», embora alguns estudiosos considerem o termo como de significação incerta. Apareceram, pela primeira vez, como um grupo distinto, pouco depois da revolta encabeçada pelos Macabeus (que libertou os judeus do governo sírio opressivo), em cerca de 140 A.C. Os fariseus usualmente vinham dentre a massa de povo comum, e nisso faziam contraste com os saduceus, que geralmente eram provenientes da aristocracia. O movimento desse nome, no princípio, envolvia uma espécie de grupo reformador, que tencionava purifi­car e defender a crença ortodoxa. Eram os porta-vozes das opiniões da maioria das massas populares. Após alguns anos se intrometeu nas fileiras do farisaísmo uma grande quantidade de atitudes legalistas e ritualistas, e isso serviu apenas para obscurecer os propósitos originais do grupo. Embora continuassem ortodoxos em suas palavras, gradualmente foram perdendo a presença e a aprovação de Deus, e se tornaram representantes inadequados da porção melhor do judaísmo.

Sob a orientação de João Hircano (134-104 A.C.) exerceram grande influência e gozaram do apoio geral da população judaica. (Ver Josefo, Antiq. XIII. 10.5-7). Porém, quando romperam com ele, João Hircano se voltou para os saduceus. Em face disso, os dois grupos se tornaram adversários daí por diante, especialmente no tocante às questões do poder político, mas também no que diz respeito às questões religiosas. Os fariseus fizeram oposição a Alexandre Janeu (103-78 A.C), e chegaram ao extremo de apelar para a ajuda do rei selêucida, Demétrio III. Por causa disso é que, quando Janeu triunfou, vingou-se deles, crucificando cerca de oitocentos dos líderes dos fariseus. (Ver Josefo, Antiq. XIII. 14.2). No leito de morte, entretanto, aconselhou à sua esposa que permitisse a reinstaurarão do grupo no poder político; e então, a partir dessa data começaram a dominar o sinédrio, o principal tribunal religioso e civil da época, entre os judeus, o que continuou até à destruição de Jerusalém, no ano 70 D.C.

Apesar de exercerem notável autoridade, na realidade os fariseus eram um grupo de minoria.

II. História e Caracterização Geral

Os fariseus, pelo menos em certo sentido, representavam a continuação dos ideais de Esdras, visto que eles eram mestres (com frequência, escribas) que tentavam levar avante o ministério de ensino, fazendo-o com grande meticulosidade. No começo do século II A.C, eles eram chamados hasidim, «santos de Deus». O termo hebraico perushim (fariseus) é de origem incerta, embora seja claro que um grupo com essa denominação surgiu após a revolta dirigida pelos Macabeus. Esse nome ocorre pela primeira vez nos textos que tratam sobre os reis sacerdotes hasmoneanos. Grande parte da história do farisaísmo trata a respeito da oposição que eles exerciam contra aquilo que consideravam forças transigentes, e destrutivas do judaísmo, o partido dos saduceus. Os saduceus representavam a abastada classe sacerdotal, ao passo que os fariseus eram os conservadores bíblicos, até mesmo fanáticos. Em certo sentido, o farisaísmo foi uma força democratizante dentro do judaísmo, que tentava salvar o sistema do controle rígido da classe sacerdotal dos saduceus. Os fariseus eram os porta-vozes das massas oprimidas, visto que, essencialmen­te, pertenciam a essa classe. Portanto, entre eles apareceram figuras radicais, que se opunham ao governo estrangeiro, ao passo que os saduceus, felizes e satisfeitos com o poder e a prosperidade material de que dispunham, preferiam conservar o status quo.

Como um todo, o farisaísmo pode ser recomendado por seu senso de justiça e de elevados valores éticos. O Novo Testamento, contudo, alude a eles como hipócritas e descendentes de víboras, embora devamos relembrar que isso era aplicado a alguns poucos líderes moralmente pervertidos entre eles.

Muitos dos primeiros líderes da Igreja se converteram dentre os fariseus (Atos 15:5). O nobre Gamaliel, que fora um dos mestres de Paulo, era fariseu. Naturalmente, o próprio Paulo pertencia a esse grupo e, em Atos 23:6, em sua defesa, ele declarou: «Eu sou fariseu, filho de fariseus...»

Os fariseus sempre foram um grupo minoritário. Nos dias de Herodes eles eram um pouco mais de seis mil indivíduos (Josefo, Anti. 17:2,4). O grupo não era totalmente homogêneo. Shammai foi uma figura severa que interpretava tudo de acordo com o rigor da letra. Era de uma família rica e aristocrática. Hilel, em contraste, era homem do povo, e interpretava as questões com brandura, favorecendo as debilidades do povo. A maioria dos escribas pertencia ao partido dos fariseus, e deles foram surgindo aqueles ensinos exagerados que circunda­vam a lei e as observâncias legalistas. Eles determinaram que a lei contém seiscentos e treze mandamentos, dos quais duzentos e quarenta e oito positivos e trezentos e sessenta e cinco negativos. Além disso, cercaram essas leis com um complexo e, com frequência, exagerado sistema de interpretação, que fazia pesar considera­velmente sobre os homens as suas responsabilidades morais e religiosas. Para exemplificar, eles determina­ram trinta e nove tipos de ação que, supostamente, eram proibidos para o dia do sábado. Além dessas elaborações, eles também aumentavam a importância da lei, criando analogias, de tal modo que coisas que muitas pessoas sérias nem levariam em conta, eles transformavam em questões importantes. Em sua ignorância, após tantos acréscimos feitos por eles, ainda afirmavam que sua doutrina era antiga, procedente de Moisés, como preceitos dados no monte Sinai. Ver Marcos 7:3. O Novo Testamento serve de testemunho sobre alguns desses exageros dos fariseus, mas a história também nos revela que havia pontos bons entre eles. A nossa avaliação sobre qualquer grupo jamais deveria deixar de ver os dois lados, sempre que possível.

III. Doutrinas Distintivas

As diferenças quanto às crenças doutrinárias, entre os fariseus e os saduceus, conforme é frisado pelo historiador Josefo, eram as seguintes (ver Guerras dos Judeus, II.8.14): Os fariseus criam na imortalidade da alma, que haveria de reencarnar-se. Isso poderia envolver uma série de reencarnações (doutrina essa muito comum naquela época, que evidentemente também era defendida pelos essênios, mas também incluía a ideia de que a alma haveria de animar o corpo ressurreto. Criam fortemente na sorte ou determinis­mo, no universo, bem como na existência dos espíritos. Os fariseus aceitavam como canônico o conjunto completo do V.T., ao passo que, com frequência, os saduceus aceitavam como canônicos apenas os primeiros cinco livros ou Pentateuco, ainda que, provavelmente, houvessem divergências pessoais, entre os saduceus, acerca desse particular. Os saduceus enfatizavam a adoração no templo, o que os fariseus também faziam. Mas estes últimos punham mais ênfase no desenvolvimento individual e ético do que o faziam os saduceus. Os fariseus criam que os exílios haviam sido causados pela desobediência às leis de Deus, e eles se puseram a interpretar essa lei, desenvolvendo assim os comentários que foram incorporados no Talmude. Esse zelo pelo ensino e pela interpretação chegou aos exageros tão familiares a qualquer leitor do N.T. E a sede dos fariseus pelo poder político, além de sua resistência natural a qualquer coisa que ameaçasse interromper o seu domínio religioso e a sua influência sobre o povo comum, fizeram deles inimigos naturais de Jesus. Juntamente com os saduceus, os fariseus constituíam o sinédrio, o mais elevado tribunal civil e religioso da nação judaica.

Embora Josefo não nos diga tal coisa, sabemos que os fariseus aceitavam a comum e complexa angelologia do judaísmo helenista. Isso reflete-se, por exemplo, em Atos 23:8. Sem dúvida, isso incluía uma elaborada demonologia, visto que ambas as ideias são comuns na literatura apocalíptica e pseudoepígrafa, do período que fica entre o Antigo e o Novo Testamentos. Eles eram democratas que defendiam os direitos do povo. Opunham-se aos aristocratas dentre os sadu­ceus; e alguns historiadores acreditam que isso nos leva a entender a essência mesma do farisaísmo.

IV. Denuncias da Parte de Jesus e Pontos Positivos

As denúncias de Jesus contra os exageros dos fariseus encontram-se em Mateus 23:13-30 e Marcos 7:9 (comparar com Mt 15:3). O próprio Talmude também denunciava a hipocrisia deles (Sotah, 22b), onde a similaridade com as denúncias feitas por Jesus é evidente. Naturalmente, o Novo Testamento também elogia a vários fariseus, como Nicodemos (Jo 3:1 ss), que falou com retidão em defesa de Jesus (Jo 7:50), mesmo depois que os próprios discípulos de Jesus haviam fugido (Jo 19:50). José de Arimatéia também fora fariseu (Mt 15:43), sendo altamente elogiado no Novo Testamento. Gamaliel era homem nobre, que argumentou em prol da tolerância para com os cristãos primitivos (At 5:34 ss). Outros avisaram ao Senhor Jesus de que queriam tirar-lhe a vida (Lc 13:31), e alguns fariseus mostraram-se hospitaleiros para com ele (Lc 7:36 e ss; 11:37; 14:1). — Paulo havia sido fariseu, antes de sua conversão (Fp 3:5), não se tendo envergonhado de poder repetir: «Eu sou fariseu, filho de fariseus...» (At 23:6).

 

Bibliografia J. M. Bentes

 

Fonte: EBD AREIA BRANCA