O PERFIL DE UM LÍDER CRISTÃO EXEMPLAR-BARNABÉ.

sábado, 15 de outubro de 2011

 

 

 livro de Atos dos apóstolos faz uma síntese da vida de Barnabé, um dos maiores líderes da igreja cristã, nos seguintes termos: “Porque era homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé…” (At 11.24). Há três verdades sobre Barnabé que devemos aqui destacar:

1. Um líder cristão deve investir sua vida na vida dos outros.

Ser líder é ser servo; ser grande é ser pequeno; ser exaltado é humilhar-se. Barnabé é o único homem da Bíblia chamado de bom. E por que? É porque quase sempre, ele está investindo sua vida na vida de alguém. Em Atos 4.36,37 ele está investindo recursos financeiros para abençoar pessoas. Em Atos 9.27 ele está investindo na vida de Saulo de Tarso, quando todos os discípulos fecharam-lhe a porta da igreja não acreditando que ele fosse convertido. Em Atos 11.19-26, a igreja de Jerusalém o vê como o melhor obreiro a ser enviado para Antioquia e quando ele vê a graça de Deus prosperando naquela grande metrópole, mais uma vez ele investe na vida de Saulo e vai buscá-lo em Tarso. Em Atos 13.2 o Espírito o separa como o líder regente da primeira viagem missionária. Em Atos 15.37-41 Barnabé mais uma vez está investindo na vida de alguém; desta feita na vida de João Marcos. Precisamos de líderes que sejam homens bons, homens que dediquem seu tempo e seu coração para investir na vida de outras pessoas.

2. Um líder cristão deve esvaziar-se de si para ser cheio do Espírito Santo. Barnabé era um homem cheio do Espírito Santo. Sua vida, suas palavras e suas atitudes eram governadas pelo Espirito de Deus. Um líder cheio do Espirito tem o coração em Deus, vive para a glória de Deus, ama a obra de Deus e serve ao povo de Deus. Barnabé é um homem vazio de si mesmo, mas cheio do Espírito Santo. A plenitude do Espírito não é uma opção, mas uma ordem divina. Não ser cheio do Espírito é um pecado de negligência. Precisamos de líderes que transbordem do Espírito, homens que sejam vasos de honra, exemplo para os fiéis, bênção para o rebanho de Deus. Quando os líderes andam com Deus, eles influenciam seus liderados a também andarem com Deus. Por isso, a vida do líder é a vida da sua liderança. Deus está mais interessado em quem o líder é do que no que o líder faz. Vida com Deus precede trabalho para Deus. Piedade é mais importante do que performace.

3. Um líder cristão deve colocar seus olhos em Deus e não nas circunstâncias. Barnabé era um homem cheio de fé. Ele vivia vitoriosamente mesmo diante das maiores dificuldades, porque sabia que Deus estava no controle da situação. A fé tira nossos olhos dos problemas e os coloca em Deus que está acima dos problemas. A fé é certeza e convicção. É certeza de coisas e convicção de fatos (Hb 11.1). É viver não pelo que vemos ou sentimos, mas na confiança de que Deus está no controle, mesmo que não estejamos no controle. A fé sorri diante das dificuldades, não porque somos fortes, mas porque embora sejamos fracos, confiamos naquele que é onipotente. Barnabé é um exemplo de um líder que deve ser seguido. Precisamos de líderes que vejam o invisível, creiam no impossível e toquem o intangível. Precisamos de líderes que ousem crer no Deus dos impossíveis e realizar coisas para ele. Precisamos de líderes que olhem para a vida na perspectiva de Deus, que abracem os desafios de Deus e realizem grandes projetos no reino de Deus.

 

Fonte: Hernandes Dias Lopes

 

FONTE: HERNANDES DIAS LOPES

Barnabé um homem de larga visão

terça-feira, 11 de outubro de 2011

 

Barnabé um homem de larga visão

E os que foram dispersos pela perseguição que sucedeu por causa de Estêvão caminharam até à fenícia, Chipre e Antioquia, não anunciando a ninguém a palavra, senão somente aos judeus. E chegou a fama destas coisas aos ouvidos da igreja que estava em Jerusalém; e enviaram Barnabé a Antioquia. O qual quando chegou, e viu a graça de Deus se alegrou, e exortou a todos a que permanecessem no Senhor, com propósito de coração; Porque era homem de bem e cheio do Espírito Santo e de fé. E muita gente se uniu ao Senhor" (At 11:19; 22:24).

“O futuro tem muitos nomes. Para os fracos é o inatingível. Para os temerosos, o desconhecido. Para os valentes é a oportunidade”. Victor Hugo

Problemas é tudo que vemos quando não olhamos para Jesus. Uma vontade enérgica é a alma de um grande caráter. Onde ela existe, há vida; onde não existe, ha desânimo, impotência e depressão. Conseguimos da vida aquilo que nela pomos. O mundo tem para nós exatamente o que temos para ele. É como um espelho que reflete os gestos que fazemos.

Entre as frases mais citadas, nenhuma é mais sutil, e mais repleta de adamantina verdade do que esta que tantas vezes é proferida pelos lábios humanos: “QUERER É PODER”. Quem decide fazer uma coisa, por força dessa mesma decisão bate todas as barreiras e assegura a realização dessa coisa. “Assim como o homem pensa em seu coração, assim ele é”. Pensar que somos capazes é quase sê-lo; decidir sobre uma realização é muitas vezes própria realização.

Gosto de Barnabé não somente pelo que realizou, mas porque, embora não haja muitas coi­sas escritas sobre seus feitos, eles estão presentes por onde passou. Conhecemos pessoas tão famo­sas que contribuíram tão pouco para o avanço do cristianismo, mas vemos em Barnabé alguém que de modo simples e produtivo se destacou de for­ma singular entre os apóstolos do Senhor. Agora, em Antioquia, vamos observar suas qualidades, habilidades e sua larga visão do Reino.

ANTIOQUIA

As pessoas fracas esperam as oportunidades, as for­tes, as criam”.

Antioquia da Síria era a terceira maior cidade do mundo romano, ficava cerca de 25 quilômetros do mar, às margens do rio Orontes. A cidade era um magnífico exemplo de planejamento e ar­quitetura, testemunho da supremacia da civiliza­ção grega realçada pela paz romana. Os habitan­tes de Antioquia tinham reputação de imoderada exuberância, em parte por causa do seu humor satírico e senso vivo do ridículo, mas, principal­mente, pela vida sexual que até a Roma antiga achava excessiva.

Oito quilômetros ao sul, na passagem para os montes, estava o extenso Bosque de Dafne, dominado por uma enorme estátua do deus Apolo. Nesse lugar, centenas de prostitutas ofereciam o corpo a qualquer homem que desejasse adorar a deusa do amor. Entre as árvores e os templos, vivia uma ralé humana composta de escravos fu­gidos, criminosos, endividados e outros que iam procurar refugio ali.

As vielas e os bosques de Dafne eram ter­renos férteis, Antioquia possuía uma grande va­riedade racial e social. Foi em Antioquia que os do Caminho, foram chamados de cristãos pela primeira vez, significando este termo aqueles que se assemelhavam a Cristo. Antioquia era uma ci­dade onde, desde tempos remotos, havia muitos judeus, abrigando nos dias de Barnabé e Paulo uma colônia muito numerosa com várias sinago­gas espalhadas. Era também um lugar de idolatria e licenciosidade, e Barnabé foi visto pelos após­tolos como a pessoa ideal a ser enviada para lá, a fim de liderar, fazer crescer a igreja.

HERÓIS DESCONHECIDOS ROMPEM EM ANTIOQUIA

E os que foram dispersos pela perseguição que suce­deu por causa de Estêvão caminharam até à Fenícia, Chi­pre e Antioquia, não anunciando a ninguém a palavra, senão somente aos judeus. E havia entre eles alguns ho­mens cíprios e cirenenses; os quais entrando em Antioquia falaram aos gregos, anunciando o Senhor Jesus. E a mão do Senhor era com eles; e grande número creu e se converteu ao Senhor” (At 11.19-21).

A igreja de Antioquia nasceu com uma ca­racterística muito especial, ela surgiu do sobrena­tural. Ficamos perplexos com métodos utilizados por Deus para realizar grandes feitos. Primei­ro, Ele não usou gente famosa, os pioneiros de Antioquia até hoje são desconhecidos; segundo, escapando da morte, esses homens espalhavam vida por onde passavam; terceiro, a mensagem que pregaram aos sábios de Antioquia era a mais simples do mundo: “eles anunciavam o Senhor Jesus” (At 11.20).

Outro fato importante na vida desses desco­nhecidos era que “a mão do Senhor era com eles” (At 11.21). Quando a mão do Senhor governa vidas, ou uma igreja, as notícias que o vento leva a seu respeito não são de dissensão, ciúmes ou escânda­los. Aquela era uma obra do Espírito Santo, e Ele se utilizou de homens de Chipre e de Cirene, pes­soas de pele negra, que venceram preconceitos e, no poder do Espírito Santo, abriram a porta para que Barnabé administrasse e desse seguimento.

Foi em Antioquia que as barreiras raciais ruíram. Alguns judeus helenistas, não contentes de pregar a Jesus nas sinagogas aos seus companheiros igualmente helenistas, puseram-se a pregar também aos gentios gregos, resultando em que muitos deles abraçaram a nova fé, de modo que a segunda igreja cristã a ser fundada contava com numerosos membros de origem gentílica.

Era uma época de muito preconceito, pois os gentios eram vistos pelos judeus como pessoas impuras e indignas de relacionarem-se com Deus, mesmo que o evangelho já tivesse alcançado os gentios através da pregação de Pedro na casa de Cornélio. O vento da dispersão impulsionou os que fugiam do Imperador romano para Antioquia. Esses que até hoje não são conhecidos, incendia­ram aquela cidade impura, de cerca de meio mi­lhão de habitantes, com a pregação do evangelho.

Como um fogo que incendeia uma floresta seca, esses intrépidos e desconhecidos homens de pele negra pregaram com ousadia, quebraram barreiras e preconceitos raciais, inaugurando uma grande igreja num ambiente totalmente idólatra e imoral. Existem pessoas que precisam se tor­nar renomadas e conhecidas da mídia, para assim, anunciar o evangelho com mais alcance. Estes, até hoje não foram conhecidos, não têm nomes, não possuíam credenciais, não eram apóstolos, mas uma coisa se diz com relação a eles: “a mão do Senhor era com eles”. Se a mão do Senhor for co­nosco, já é suficiente.

Como o evangelho é poderoso. Enquanto os apóstolos estavam em Jerusalém, os frutos da pregação já haviam florescido entre os gregos. “E chegou a fama destas coisas aos ouvidos da igreja que estava em Jerusalém” (At 11.22). A fama que che­gou não era como a fama que ouvimos hoje em determinadas igrejas. Quando a mão do Senhor governa, os ventos espalham grandezas e maravi­lhas realizadas pelo Senhor no meio do seu povo. Não há espaços para fofocas ou coisas que nada edificam.

BARNABÉ CHEGA À ANTIOQUIA

E enviaram Barnabé à Antioquia. O qual, quando chegou, e viu a graça de Deus, se alegrou, e exortou a todos a que permanecessem no Senhor, com propósito de coração; Porque era homem de bem e cheio do Espírito Santo e de fé. E muita gente se uniu ao Senhor” (At 11. 22b-24).

Os apóstolos parecem não ter compreendi­do que deveriam ficar em Jerusalém apenas até o momento do revestimento (Lc 24.49). Mesmo assim, Deus não deixou de trabalhar, não contou com nenhum deles, e a igreja de Antioquia foi fundada. Ainda sem sentir o calor de uma nova experiência, enviaram Barnabé à Antioquia para que fortalecesse a igreja e administrasse segundo a unção e graça que estavam sobre sua vida.

Deus tem projetos guardados em sem cora­ção para frustrar os mais sábios dos homens. Ele nunca está desprevenido e havia um propósito por Ele desenhado para que Barnabé assumisse o controle daquela missão. Primeiro, manteve os apóstolos em Jerusalém, depois fez com que Bar­nabé fosse enviado por eles. Nada é por acaso no Reino de Deus.

Barnabé tinha algumas vantagens, e também desafios para enfrentar em Antioquia. Era nativo de Chipre, conhecia a língua grega e compreendia a cultura da época. Todavia, Antioquia era uma cidade moralmente imunda e de péssima reputa­ção. A Fenícia seguia uma religião pagã, e Antio­quia, o seu centro, era uma cidade espalhada, com cerca de meio milhão de habitantes, conhecida pelas corridas de bigas, jogo, prostituição, sistema de governo corrupto.

Outro fato importante é que o templo da deusa Diana ficava a 8 quilômetros da cidade e era um antro daquelas que eram chamadas de prostitutas sagradas. Para Barnabé era um grande desafio, pois os novos convertidos poderiam ser seduzidos pela imoralidade da cidade, visto que não possuíam qualquer conhecimento sobre a rica herança religiosa do judaísmo. Eles não conheciam a Deus e não haviam aprendido as Escrituras.

As vantagens de Barnabé se concentram em conhecer a cultura, falar a língua grega, e acima de tudo, por suas qualidades morais, pessoais e espirituais. Pois não existe nenhum outro homem citado no Novo Testamento que reunisse em si as qualidades que Barnabé possuía. “Ele era homem de bem, cheio do Espírito Santo e de fé”. Qualidades que raramente encontramos combinadas nos servos de Deus, inclusive em nós mesmos (At 11.24).

Às vezes encontramos pessoas cheias do Espírito Santo que nem sempre são pessoas de bem; é possível encontrar pessoas de fé que não são cheias do Espírito Santo; ou pessoas de bem, cheias dos Espírito Santo, cuja fé é baixíssima e destoante.

Na verdade, ter essas qualidades combinadas na época de Barnabé era muito diferente do que ocorre em nossos dias. Hoje uma pessoa cheia do Espírito Santo é a que salta, dança e faz piruetas; observemos a vida de Barnabé e veremos o que realmente era ser cheio do Espírito Santo; ser de bem e ser cheio de fé. Era realmente um conceito muito superior ao que existe hoje em dia

BARNABÉ, UM LÍDER DE LARGA VISÃO

A águia gosta de pairar nas alturas, acima do mun­do, não para ver as pessoas de cima, mas para estimulá-las a olhar para cima”. Elisabeth Klüber – Ross

Existem muitas pessoas que não têm visão para a vida nem sabem como obtê-la. Existem outras que até têm uma visão, mas estão presas na lama da confusão, sem saber o que fazer. Existem também aquelas que um dia tiveram uma visão, mas a abandonaram por causa de desânimo, de­silusão ou por conta do fracasso e da frustração. Mas a grande verdade é que todos nascemos com um propósito individual. Todavia, o aspecto trá­gico dessa realidade, é que muitos de nós vive­mos toda uma vida sem jamais identificar para que nascemos.

Visão é a habilidade de enxergar além do que nossos olhos físicos conseguem ver. A capa­cidade de não apenas ver como é, mas também de como pode vir a ser uma realidade. Visão é um conceito inspirado por Deus no coração de um ser humano. A vista é uma função dos olhos, mas a visão é uma função do coração. Nós podemos enxergar e ao mesmo tempo não ter visão.

É simples. Deus deu à humanidade o dom da visão para que não vivêssemos somente por aquilo que podíamos ver. As palavras visão e re­velação são, às vezes, usadas de maneira interca­lada. Revelar significa desvendar. Algo que é des­vendado estava lá o tempo todo, mas não podia ser visto exteriormente.

Por exemplo: o destino de um fruto do car­valho é ser uma árvore. Pela fé, conseguimos ver a árvore dentro da semente. Você tem uma visão dela pelos olhos da mente, porque identifica o potencial na semente. A mesma coisa ocorre co­nosco. Deus nos criou para um propósito, e para Deus esse propósito já está terminado porque Ele colocou dentro nós o potencial para cumpri-lo.

O que vemos é uma semente, mas o que re­almente está ali é uma árvore com frutos, frutos com sementes, e sementes com muitas outras árvores, que formarão em uma floresta. Nosso olhar vê uma semente, mas ali está uma floresta. Para verdadeiros visionários, o mundo projeta­do por suas visões é mais real do que a realidade concreta ao redor deles.

Conta-se que quando a Disney World foi inaugurada, havia apenas um aparelho de diversão. Walt Disney estava sentado em um banco, olhando fixamente para cima. Um dos trabalhadores, que estava cuidando do gramado, passou por ele e perguntou: “Como está, senhor?”. “Bem, obri­gado” respondeu Disney, sem olhar para o ho­mem, e continuou olhando para cima. Então o homem disse: “Sr. Disney, o que o senhor está fa­zendo?”. “Estou olhando para minha montanha. Vejo a montanha bem ali”, ele respondeu.

Walt contou aos seus arquitetos a respeito dessa montanha. Enquanto a descrevia, eles es­creveram o que ele falava, e, em seguida, elabora­ram os projetos. Walt morreu antes que a Space Mountain (Montanha Espacial) fosse construída, portanto não chegou a vê-la edificada. Quando a Space Mountain foi inaugurada, o governador e o prefeito estavam presentes, e a viúva de Walt também estava lá.

Um jovem levantou-se para apresentá-la e disse: “E uma pena que o Sr. Walt Disney não es­teja aqui hoje para ver esta montanha, mas esta­mos felizes pelo fato de sua esposa estar aqui”. A Sra. Disney foi até o pódio, olhou para a multidão e disse: Devo corrigir este jovem. “Walt já viu a montanha. É você que a está vendo apenas agora”.

A visão é a energia de uma liderança eficaz. Quando um líder vive a reclamar, sente-se opri­mido e cansado, é porque está sem visão. Quem tem visão vive por ela, ela é sua força. Veja quão grande exemplo nos deixou Calebe, que após ter visto e entrado na terra prometida, foi incluído no grupo dos insurretos de Israel e condenado mesmo sem culpa a rodear o deserto por quaren­ta lastimosos anos. Ele nunca se cansou, e quan­do chegou o fim daquele castigo, disse a Josué:

E agora eis que o Senhor me conservou em vida, como disse; quarenta e cinco anos são passados, desde que o Senhor falou esta palavra a Moisés, andando Israel ainda no deserto; e agora eis que hoje tenho já oitenta e cinco anos; E ainda hoje estou tão forte como no dia em que Moisés me enviou; qual era a minha força então, tal é agora a minha força, tanto para a guerra como para sair e entrar. Agora, pois, dá-me este monte de que o Senhor falou aquele dia; pois naquele dia tu ouviste que estavam ali os anaquins, e grandes e fortes cidades. Porventura o Senhor será comigo, para os expulsar, como o Senhor disse” Js 14. 10-12).

Um líder precisa ter um destino, um lugar onde chegar. O sentido de uma liderança é a vida. Pois um verdadeiro líder deve dar sentido à vida de seus liderados. Barnabé incentivou os irmãos a permanecer no Senhor com propósito, procu­rou instruí-los, e eles receberam o reconhecimen­to público de que se pareciam com Jesus Cristo. Nada muda sem liderança, nada acontece sem liderança, nada melhora sem liderança, nada se corrige sem liderança. Os líderes não mantêm as coisas, eles as melhoram.

A qualidade de um líder determina a qua­lidade do povo. Jamais devemos culpar o povo pelo fracasso de nossa organização se somos os líderes. Quando melhoramos, o povo também melhora, e se afundamos, o povo também afun­da. Por que o povo de Antioquia foi comparado a Cristo? Simplesmente porque sua liderança se pa­recia com Cristo. Os líderes não gerenciam alvos, eles projetam destinos. Não possuem visões am­biciosas, estão dispostos a morrer por uma visão.

Na verdade, não podemos acreditar na visão de quem não é capaz de morrer por ela. Quem tem visão se torna um catalizador, sempre doa ao povo. Infelizmente, muitos líderes fracassam porque dão ao povo sua personalidade e não sua visão. Líderes passam, mas a visão é de gerações, não é pessoal, não é nossa, é para os filhos que ainda não nasceram. O fracasso está em querer transferir ao povo a nossa personalidade e não a visão que Deus nos deu. Porque na morte, tudo morre sem a transferência.

O que faz o bom pastor? O que disse Jesus? O bom pastor dá a vida por sua ovelhas. Será que suportamos ataques por causa da visão? Seriamos nós como Calebe algum dia? Entenda: se não es­tamos dispostos a morrer pela visão, ela não é visão, é apenas um emprego. A visão dada por Deus sempre irá edificar o povo e nunca destruí- lo. Líderes que espalham não são líderes. Líderes verdadeiros sabem reconhecer até seus limites, sabem reconhecer quem irá além deles, sabem incentivá-los, sabem prepará-los.

Quem você está preparando para assumir seu lugar amanhã? Ninguém? Então você não é líder. Líderes projetam outros líderes, sabem que não são eternos. Barnabé, preparou os crentes de Antioquia, a única igreja da Ásia que nunca re­cebeu uma repreensão. Preparou Saulo, preparou João Marcos, isto é ser líder. Líderes que têm vi­são sabem até onde podem ir, sabem seu tempo, sabem que não podem fazer tudo sozinhos, sa­bem que são limitados.

Uma vida sem visão é uma existência pobre. Sem uma visão do futuro, a vida perde o seu sig­nificado. E a ausência de significado leva à falta de esperança. Sempre que as pessoas estão desani­madas com a sua própria vida, elas podem se tor­nar rancorosas em relação a tudo em redor. Elas se sentem como se estivessem desperdiçando a vida e começam a viver vagamente. Não importa quanto dinheiro uma pessoa tenha, qualquer um que viva assim é pobre.

É profundamente desolador saber que, ape­sar de termos recebido uma visão singular, mui­tos de nós acabamos enterrando nossos sonhos e nos conformando com uma existência inferior, transformando-nos num cemitério do precioso tesouro de Deus. Muitas pessoas passam a vida inteira se distanciando daquilo que Deus plane­jou que elas fossem, porque nunca reconheceram quem são em primeiro lugar.

Diz-se que há três tipos de pessoas no mun­do: Primeiro, há aquelas que parecem que nunca percebem o que está acontecendo ao redor delas. Segundo, há aquelas que perguntam: “O que aca­bou de acontecer?” E, terceiro, há aquelas que fazem as coisas acontecerem. Qual dessas será você? Já se perguntou para que propósito você foi criado? Já capturou a visão que Deus tem para sua vida? Pessoas de visão nunca se deixam abater, sabe por quê? Porque estão sempre no futuro. Nada aqui poderá detê-las.

Elas não enfraquecem, não desistem em hi­pótese alguma. Elas são como Neemias, jamais descem, jamais param o que estão fazendo quando são incomodadas por pessoas que não têm o que fazer. Sabe de uma verdade? Quem não tem o que fazer sempre vai querer que você faça o mesmo que ele. Seja como Barnabé, veja, tenha sempre seus olhos no amanhã, sonhe e transfor­me em realidade o que Deus já colocou em sua vida. A propósito, você é um líder?

AS TRÊS VISÕES DE BARNABÉ

E chegou a fama destas coisas aos ouvidos da igreja que estava em Jerusalém; e enviaram Barnabé a Antioquia. O qual, quando chegou, e viu a graça de Deus, alegrou-se, e exortou a todos a que permanecessem no Senhor, com propósito de coração; porque era homem de bem e cheio do Espírito Santo e de fé. E muita gente se uniu ao Senhor. E partiu Barnabé para Tarso, a buscar Saulo; e, achando-o, o conduziu para Antioquia. E sucedeu que todo um ano se reuniram naquela igreja, e ensinaram muita gente; e em Antioquia foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos (At 11. 22-26).

OLHOU PARA A IGREJA E VIU A GRAÇA DE DEUS

Barnabé era um homem de qualidades com­binadas. Um homem de bem, cheio do Espírito Santo e acima de tudo, cheio de fé (At 11.24). Um homem de grande sensibilidade espiritual para conhecer coisas divinas. Assim que chega à Antioquia e olha para a igreja ali estabelecida vê a graça de Deus e se alegra (At 11.23).

O que Barnabé contemplou é o que todo homem espiritual sabe existir na igreja do Senhor, uma graça sobrenatural que nos alegra. Todavia, para os espirituais isso é notório e verdadeiro, mas não para os que estão de fora. Sabemos que essa graça impactante está na igreja, mas necessita estar incorporada não no templo, mas na vida de cada membro que a compõe.

Essa glória vista por Barnabé necessitava impregnar a vida daqueles membros para que os de fora fossem contagiados por ela também. Barnabé era o homem escolhido para conduzir Antioquia a um nível de unção diferente e contagiante naquela região. Então, de modo especial, ele sente que sozinho não poderia e, embora, fos­se um homem de grandes qualidades, necessitava da ajuda de alguém que rompesse com o natural. Assim, ele tem uma segunda visão: descer a Tar­so em busca de Saulo para que se una a ele nesse propósito.

BARNABÉ NÃO TEMEU SER SUPERADO

O que hoje para muitos é um risco, signifi­cou foi o sucesso da igreja que estava em Antio­quia. Barnabé não viu Saulo como alguém que fosse superá-lo e tomar seu lugar. Em primeiro lugar ele pensou no bem estar da igreja, dando-lhe o melhor. Pensou legitimamente no Reino e não em sucesso ministerial. Viu Saulo como um aliado na tarefa de elevar a performance espiritual daquele povo e assim, glorificar o nome do Senhor naquela região.

Barnabé reconheceu suas limitações. Sabia que a obra de Deus não se faz somente por que se é bom, cheio do Espírito Santo e por fé. Ela se faz com unidade e determinação. Pois ainda que tenhamos todos os dons nada se deve fazer de forma egoísta. É preciso aprender que outros precisam brilhar e brilhar através de nós.

Barnabé foi uma ponte para o ministério de Saulo. Ele era o líder da obra, mas a sabedoria para moldar aquele povo estava sobre Saulo. É neste momento que surge a sua terceira visão.

A VISÃO DO FUTURO

Em Saulo havia algo que não havia em Bar­nabé, como em todos nós existe algo que não existe em outros. Mas Barnabé pensou no futuro de seu povo e não em seu sucesso como pastor de Antioquia.

Ele olhou para Saulo e viu o futuro, viu uma igreja estruturada e juntos formaram uma equipe sobrenatural. Saulo foi o instrumento que conduziu os crentes de Antioquia ao exercício da Pa­lavra. Durante todo um ano, eles se ampararam da tarefa de ensinar. O resultado foi tão surpre­endente que a graça que Barnabé havia visto na igreja impregnou de tal modo a vida dos crentes que, ao passar pelas ruas, eles foram confundidos com miniaturas de Cristo.

Essa dupla não formou grandes homens, crentes famosos, formou pequenos Cristos. Em Antioquia eles foram pela primeira vez reconhecidos, não como seguidores de Cristo, mas como réplicas menores daquele a quem serviam. Infe­lizmente, hoje, criamos não miniaturas de Cris­to, mas homens que se acham deuses e donos de uma igreja pela qual jamais teriam a capacidade de morrer.

QUE VIU BARNABÉ?

1 — Que nem tudo o que valorizamos como bom está em cima. É necessário descer para Tar­so, é necessário olhar para baixo. Que tal descer?

2 — Existem muitas peças que foram ungidas para grandes obras, mas que precisam ser eleva­das. Não foram ainda utilizadas. Estão ainda embaixo esperando que surja um Barnabé para lhes estender a mão.

3 — O medo de serem superados impede que levantemos aqueles que avançarão mais do que nós. Barnabé foi a ponte para Saulo desenvolver seu ministério. Ser ponte é saber se colocar embaixo, muitos não observam a ponte, mas o que está sobre ela. Barnabé soube ser ponte, você saberá?

4 — Não importa ser bom e ter muitas qualidades no Reino de Deus, o importante é saber se relacionar, unir forças e trabalhar, não para si; mas para que o Reino se desenvolva.

5 — Todo Saulo precisa de um Barnabé. Alguém que lhe estenda a mão, que lhe dê espaço para trabalhar e que apoie suas ideias. Saulo encontrou, você também encontrará. No Reino ninguém é ungido para não se movimentar. Na hora certa Deus enviou Barnabé, na hora certa a mão que precisamos se estenderá.

 

Bibliografia Pr Abner Ferreira

 

EBD AREIA BRANCA

 

 

Barnabé um homem de larga visão

Revista Betel 20 anos de benção

 

 

06 DE OUTUBRO DE 1991 – 06 DE OUTUBRO DE 2011 – 20 ANOS DE BENÇÃOS

Quero parabenizar a Editora Betel e seu primeiro comentarista Pr Manoel Ferreira, pelo dia de hoje, quando exatamente completa 20 anos da primeira aula dominical da revista Betel.

Quero deixar para nossa meditação o 1º Texto Áureo da Betel

"O Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece: mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós." Jo 14.17

Abaixo fotos da Revista Nº 1

Hoje EXATAMENTE 06 de outubro de 2011, comemora-se os primeiros 20 anos da primeira Lição Dominical da Editora Betel.

Que Deus possa continuar abençoando a Editora Betel para que o FUTURO continue sempre PRESENTE em nossas vidas.

 

EBD AREIA BRANCA

 

Revista Betel 20 anos de benção

A HISTÓRIA DOS LEPROSOS II RS 7.3-20

terça-feira, 26 de julho de 2011

 

Fim do Cerco II Rs 7.3-20

A História dos Leprosos 7.3-10

A intervenção divina que Eliseu havia predito (II Rs 7.1,2) logo teve lugar. O autor sagrado contou-nos uma interessante história lateral que esteve relacionada à sua história principal, sobre o levantamento do cerco por parte dos sírios. Aqueles miseráveis leprosos tornaram-se mensageiros das boas-novas, embora tivesse levado algum tempo para o rei de Israel descobrir pessoalmente a verdade dos fatos. De fato, o cerco havia sido levantado, e a profecia de Eliseu, ainda que improvável, fora cumprida com precisão. Isso demonstrava, uma vez mais, que ele era um verdadeiro profeta do único Deus vivo e verdadeiro, Yahweh. Israel deveria tê-lo ouvido e abando­nado sua idolatria e apostasia. Contudo, a despeito das histórias maravilhosas de milagres, Israel preferia persistir no mal. O cativeiro assírio não estava longe. Israel em breve deixaria de existir como uma nação.

7.3

Quatro homens leprosos. Os leprosos, muito provavelmente, estavam abri­gados em cabanas que havia fora do portão da cidade de Samaria.

A legislação mosaica requeria que eles fos­sem isolados (ver Lv 13.46). A palavra hebraica sara'at, traduzida pelas versões mais antigas como "lepra", provavelmente incluía essa enfermidade, mas também incorporava outras enfermidades cutâneas, até mesmo míldios e fungos que nada têm a ver com a lepra (doença de Hansen).

A fantasia judaica põe o ex-servo de Eliseu, Geazi, e seus filhos, entre os leprosos que figuram nessa história (Talmude Bab. Sotah, folha 47.1 e Sanh. foi. 107.2). Ver II Rs 5.20 ss quanto à história de Geazi, sobre como ele se tornou um leproso por causa de sua ganância.

7.4

Vamos, pois, agora. As vítimas da sara'at dependiam de sua própria agricul­tura e da caridade alheia. Elas tinham de organizar-se em comunidades separa­das e autossustentadas, mas as referências históricas e literárias mostram-nos que, com frequência, viviam como esmoleres. É provável que os leprosos que figuram na presente história também vivessem como esmoleres. O povo de Samaria deixou de suprir-lhes alimentos, porquanto eles mesmos nada tinham para comer, em face do cerco dos sírios. Portanto, fora das muralhas da cidade, lá estavam eles, padecendo fome, tal como o resto dos cidadãos de Samaria e daquela região geral.

A Condição Era Desesperadora. Eles estavam famintos. Portanto resolveram entregar-se aos sírios, pois eram estes que tinham alimentos. A pior coisa que poderia acontecer seria os sírios matarem aqueles pobres esmoleres leprosos. Mas talvez lhes fosse dado algo para comer e assim salvar a vida deles. Em desespero, resolveram arriscar a própria sorte.

7.5

Levantaram-se ao anoitecer. Os leprosos dirigiram-se ao acampamento dos sírios, em seu ato de desespero. Mas, chegando ali, não encontraram um único homem. Marcharam atravessando o acampamento inteiro. Procuraram al­guém por toda a parte. De fato, o acampamento estava totalmente deserto.

A nossa versão portuguesa diz "ao anoitecer". O versículo nono confirma que eles foram até o acampamento dos sírios durante a noite. Ao amanhecer o dia, entretanto, foram contar as boas-novas aos habitantes de Samaria. Por outra parte, é difícil ver por que os leprosos se internaram no acampamento dos sírios à noite. A palavra hebraica nehshaf pode indicar o começo ou o fim da noite, um tempo quando ainda há alguma luz do sol, ou no fim da madrugada, antes do sol aparecer no horizonte.

7.6

Fizera ouvir no arraial dos sírios ruído. A razão da partida dos sírios. Yahweh fizera soar o ruído como de um imenso exército, equipado com inúmeros cavalos e carros de combate. Os sírios chegaram imediatamente à conclusão de que o rei de Israel havia alugado um grande exército de mercenários para lutar contra eles. Seus inimigos perenes, os hititas e os egípcios, facilmente concorda­riam em lutar em troca de dinheiro, de modo que esses povos deveriam estar envolvidos, raciocinaram os sírios.

O modus operandi do ruído não foi explicado pelo autor sagrado. Alguns estudiosos supõem que uma hoste de anjos tenha sido responsável pelo ruído.

7.7

Pelo que se levantaram, e, fugindo ao anoitecer. A fuga dos sírios foi completa e precipitada. Os sírios, aterrorizados pelo ruído divinamente provo­cado, partiram sem levar coisa alguma. Deixaram intacto o próprio acampa­mento e até abandonaram os animais, seguindo a pé. Deixaram para trás todos os seus objetos valiosos e seus alimentos. Os saqueadores certamente tiveram um dia de abundância! "Este versículo nos dá um vívido quadro de uma fuga apressada, na qual tudo foi esquecido, exceto a segurança pessoal" (Ellicott, in loc).

7.8

Comendo e Enriquecendo. Os leprosos atravessaram todo o acampamento dos sírios, apossaram-se de toda espécie de alimento e bebida, e reuniram coisas valiosas como prata, ouro e vestes. Eles entravam e saíam do acampamento, recolhendo cada vez mais e escondendo tudo. Josefo diz-nos que eles fizeram quatro assaltos ao acampamento (ver Antiq. 1.9, cap. 4, sec. 4). Aqueles leprosos tinham acabado de tornar-se financeiramente independentes. Eles tinham um suprimento para a vida inteira de tudo quanto poderiam precisar. Oh, Senhor! Concede-nos tal graça!

Era uma prática oriental comum esconder artigos de valor no chão ou em lugares secretos nas casas. Isso lhes servia de bancos. Os antigos não dispu­nham de cofres, como nós os possuímos modernamente.

7.9

Não fazemos bem: este dia é dia de boas novas. Um toque de consciên­cia. Aqueles leprosos, antes pobres mas agora ricos, tiveram um estalo em sua consciência. Ali estavam eles, comendo, bebendo e alegrando-se, e enriquecen­do, enquanto mulheres e crianças sofriam de inanição na cidade de Samaria. Eles não estavam "agindo corretamente". Além disso, se continuassem a agir como estavam fazendo, não compartilhando do que tinham achado, algum castigo poderia alcançá-los, por causa de seu-egoísmo. Assim sendo, chegaram à conclu­são de que era tanto no interesse próprio como no interesse da comunidade, que eles espalhassem as boas-novas.

"Nessas verdades encontramos uma verdade profunda. Em nenhum departa­mento da vida pode alguém receber um grande presente e recusar-se a comparti­lhar sem que pratique grande mal. Quando um homem tem grandes riquezas mas as guarda para si mesmo, sofre deterioração moral. Quando uma pessoa tem o benefício de ter recebido uma boa educação, mas usa essa vantagem somente para fins pessoais e egoístas, em lugar de usá-la como um instrumento de serviço social, sua educação torna-se uma maldição para ele, em lugar de uma bênção" (Raymond Calking, in loc).

Precisamos publicar as nossas boas-novas. Já recebemos o dom inefável, as insondáveis riquezas de Cristo. Uma maldição aguarda aqueles que não compar­tilham essas bênçãos (ver I Co 9.16).

"Em lugar de sofrer como criminosos, eles preferiram ser tratados como heróis. Assim sendo, decidiram retornar a Samaria e proclamar suas boas-novas" (Thomas L. Constable, in loc).

7.10,11

Logo os leprosos estavam nos portões de Samaria, comunicando as boas-novas aos porteiros da cidade. Dali, o recado espalhou-se até a casa do rei. Aqueles homens tinham cumprido os ditames de sua consciência, e ninguém tiraria deles as riquezas que haviam adquirido de maneira tão surpreendente. Yahweh tinha feito intervenção em favor de Israel; os sírios haviam fugido por causa do ruído divino (ver o vs. 6 deste capítulo). Yahweh também havia intervin­do em favor daqueles miseráveis leprosos: agora eram homens financeiramente independentes. Isso reflete a posição do teísmo. O Criador não é uma força distante que criou, mas então abandonou o seu universo (conforme ensina o deísmo). Pelo contrário, Ele continua vivendo entre os ho­mens; Ele recompensa e castiga; Ele intervém na história humana, coletiva e pessoal. Ele se preocupa até com os pardais que caem no chão (ver Mt 10.29).

Os leprosos contaram a história exatamente conforme tinham acontecido as coisas, sem nada adicionar e sem nada subtrair. Os sírios haviam realmente fugido; eles tinham, na realidade, deixado para trás seus animais, seus alimentos e seus objetos valiosos. O acampamento deles tinha sido reduzido a uma cidade-fantasma.

7.12

Bem sabem eles que estamos esfaimados. Um alegado truque dos sírios. O rei de Israel não aceitou a palavra dos leprosos como se eles representassem a verdade inteira. Sim, os sírios haviam abandonado o seu acampamento. Não, eles não tinham voltado para a Síria, pensou o rei. Antes, estavam tramando um ardil. Os famintos israelitas sairiam correndo pelos portões da cidade para obter alimen­to no acampamento dos sírios. E, então, de súbito, os inimigos se atirariam sobre o povo e matariam todos. Por conseguinte, o rei de Israel recomendou extrema cautela. Os sírios não tinham sido capazes de romper a resistência dos samaritanos (conforme estes poderiam pensar); e assim, um truque faria o que a fome não tinha conseguido fazer.

7.13,14

Tomaram, pois, dois carros com cavalos. Um Teste. Um dos oficiais do rei de Israel sugeriu que se fizesse uma espécie de teste, conforme o que os lepro­sos tinham feito. Samaria enviaria uma companhia de pessoas que serviria de teste. Eles sairiam com duas carroças e cavalos, para ver se os sírios os atacari­am. Além disso, observariam cuidadosamente todo o terreno em redor, para ver se o inimigo estaria escondido em algum lugar. Assim fazendo, eles poderiam ser mortos; mas, se permanecessem na cidade, morreriam de fome de qualquer maneira. Portanto, lançaram sua sorte ao destino. Foi um esforço de "fazer ou morrer".

O oficial sugeriu que cinco cavalos e seus cavaleiros se arriscassem. Em lugar disso, entretanto, saíram duas carroças puxadas por dois cavalos cada uma.

O versículo 14 pode dar a entender que uma única carroça, com seus dois cavalos, e provavelmente uma equipe de dois homens, saiu da cidade. Mas o hebraico diz, literalmente, "duas carroças de cavalos", isto é, duas carroças com dois cavalos cada uma.

Assim sendo, eles saíram, tendo pouco que perder e (talvez) muito que ganhar, a mesma situação que os leprosos haviam enfrentado. Situações desesperadoras exigem esforços desesperados.

7.15

O grupo de risco aproximou-se primeiramente do acampamento dos sírios, e depois foi até o Jordão, espiando o território. Isso significa que eles percorreram cerca de quarenta quilômetros no total. Não encontraram, contudo, um único sírio. O que eles encontraram foram evidências de uma retirada precipitada. De fato, a retirada havia sido caótica. Eles haviam deixado para trás uma trilha de vestes e equipamento. Ao que tudo indica, haviam atravessado o rio Jordão e desapareci­do. "Em seu espanto e medo, eles lançaram fora as vestes e as armaduras de guerra que os tolhiam" (John Gill, in loc). Josefo fala em armaduras como inclu­sas entre os itens abandonados pelos sírios (ver Antiq. 1.9, cap. 4, sec. 4). (na ajuda 2 estarei colocando a historia por Josefo)

Um bom relatório foi dado ao rei de Israel, e muitos dos habitantes de Samaria imediatamente mobilizaram-se para ir buscar tanto quanto pudessem; que servis­sem primeiramente a si mesmos, e depois, vendessem o que pudessem a outros.

7.16

Comendo e saqueando. Os famintos israelitas imediatamente invadiram o rico acampamento sírio. Havia ali muitos alimentos e artigos valiosos que os leprosos não tinham conseguido tomar. Primeiramente, cada pessoa encheu o estômago com alimentos, e então encheu suas sacas com objetos de valor. Assim, de repente, houve abundância de alimentos, que logo eram comerciados. Os preços cobrados pelos artigos foram exatamente aqueles preditos pelo profeta (ver em II Rs 7.1). Isso foi o cumprimento da "palavra de Yahweh", visto que o profeta tinha proferido a palavra do Senhor, e não a sua própria palavra. Aqueles que não tinham corrido para o ex-acampamento dos sírios, e que haviam preferido ficar em Samaria, logo estavam comprando alimen­tos dos que tinham ido. Admiramo-nos por qual motivo, naquele dia, o alimento não poderia ter sido distribuído de graça; mas a verdade é que a generosidade do homem não é muito grande. O eu sempre se faz presente, querendo mais. Assim, vemos o espetáculo de "comerciantes" de estômago cheio a vender cereal sírio para seus vizinhos famintos!

7.17

O povo o atropelou na porta, e ele morreu. Cumprimento da terrível predi­ção. O oficial do rei que havia duvidado da verdade da profecia de Eliseu, contra quem fora proferida uma maldição (vs. 2), ficou encarregado de cuidar do portão, para manter as coisas sob controle. Mas a multidão se precipitou loucamente, e o pisoteou até a morte, tal e qual o "homem de Deus" havia dito que aconteceria. O comércio pegou fogo naquele dia. O cereal sírio estava sendo vendido em grande quantidade. A multidão parecia enlouquecida, de tanto vender e comprar. O pobre oficial do rei perdeu a vida no meio daquela loucura. "Portanto, ele viu a abundân­cia de alimentos, mas não participou dela, conforme Eliseu havia predito que aconteceria (vs. 2)" (John Gill, in loc).

Além da atividade de comprar e vender, o povo se precipitava pelo portão da cidade para ir visitar o ex-acampamento sírio, o que só aumentava a confusão. Era impossível manter a ordem.

"Aquele homem havia ridicularizado a capacidade de Deus fazer aquilo que Ele disse que faria (ver o vs. 2). A sorte que Eliseu havia predito o alcançou" (Thomas L. Constable, in loc).

7.18

Assim se cumpriu o que falara o homem de Deus. Este versículo repete o que já fora dito nos versículos segundo e décimo sexto deste capítulo. Foi algo realmente notável, que mereceu ser reiterado. O "homem de Deus" havia dito que "amanhã" o cereal estaria sendo vendido pelos preços mencionados, e essa pre­dição parecera claramente impossível, considerando os itens pouco apetecíveis (cabeças de jumentos e esterco de pombas, II Rs 6.25) que, no dia anterior, estavam sendo vendidos a preços astronômicos. Yahweh fizera o impossível. Foi um dos maiores milagres esse de livrar o povo dos inimigos de Israel, ao mesmo tempo que havia provisão alimentar abundante, tudo ao mesmo tempo.

7.19

Este versículo faz referência ao versículo segundo deste capítulo, o ridículo lançado pelo oficial do rei de Israel. Seria claramente impossível que o cereal fosse vendido por qualquer preço em Samaria, no dia seguinte, quanto menos ao preço que o profeta havia estipulado. Para que isso acontecesse, seria necessário que Yahweh abrisse as janelas do céu e vertesse o cereal sobre a terra, conforme fazia cair a chuva. O homem falou com sarcasmo sobre a profecia de Eliseu, e no dia seguinte pagou com a própria vida a sua insolência.

O autor sagrado queria que entendêssemos que fora Yahweh quem fizera aquele milagre. Ele deu ao povo alimento mediante um método miraculoso. Quem fez aquilo não foi Baal, que era apenas um conceito imaginário, circundado por ídolos destituídos de vida. O milagre foi mais um chamado para Israel arrepender-se e abandonar a idolatria. Mas foi outro convite inútil. Israel estava enterrado até o pescoço em sua degradação.

7.20

Este versículo tece considerações sobre os versículos segundo e décimo sétimo deste capítulo. O homem que havia ridicularizado a profecia de Yahweh e Seu profeta, por meio de quem, se dera a conhecer, sofreu exatamente aquilo que foi predito a respeito dele. Ele foi pisoteado até morrer, no portão da cidade, para onde o rei o enviara para ajudar a manter a ordem. Foi vítima de sua própria incredulidade, uma história muito antiga entre os homens.

Bibliografia R. N. Champlin

 

FONTE:EBD AREIA BRANCA

A MULTIPLICAÇÃO DOS PÃES PARA OS CINCO MIL

 

 

Multiplicação Dos Pães Para os Cinco Mil

I. Descrição

Esta seção, que é um dos milagres sobre a natureza feitos por Jesus, é o único milagre relatado em todos os quatro evangelhos. (Ver Mc 6:30-44; Lc 9:10-17; Mt 14:13-21; Jo 6:1-14). Sem dúvida chegou até nós proveniente de várias fontes, conforme se demonstra no manuseio diferente do incidente nos quatro evangelhos. Alguns estudiosos supõem, entretanto, que o que temos é apenas o manuseio diverso de uma única tradição. Isso é menos provável, entretanto. A menção dos «pães de centeio» (Jo 6:9) faz-nos lembrar do milagre de Elias, em II Reis 4:42-44. (Ver também I Rs 17:9-16). Porém, a despeito das similaridades, não há motivo para supor-se que temos aqui meramente uma narrativa inventada, mediante a qual o evangelista queria ensinar que Jesus é, espiritualmente falando, o pão da vida. Não tenhamos dúvidas de que Jesus possuía o poder de realizar o que lhe é atribuído aqui, rejeitando todas as interpreta­ções — céticas e racionalistas — que buscam roubar-lhe — sua glória — e o seu altíssimo desenvolvimento espiritual, obtido mediante a comu­nhão com o Espírito Santo. Isso também está franqueado a nós, pelo que temos grande lição para as nossas próprias vidas. Assim, se quedamos admirados ante o que ele dizia e fazia, resta-nos lembrar que o intuito do evangelho é que tudo quanto havia em Cristo também se acha em nós (ver Jo 12:14; Cl 2:10; II Co 3:18; Ef 3:19 e II Pe 1:4). Esse é o aspecto da vida de Jesus que mais facilmente esquecemos. Sua vida, e não apenas sua morte, se reveste de imensa importância. Ele é o Caminho; mas é também o Pioneiro do caminho, o qual mostra aos homens como eles podem e devem retornar ao Pai. Nesse retorno há comunhão de natureza dentro da família divina, conforme se aprende em Hb 2:10 ss. Essas são doutrinas elevadíssimas, que excedem infinitamente à mensagem do mero perdão de pecados e de transferência de cidadania para os céus. O evangelho consiste muito mais do que se realiza em nós, e não do lugar onde habitaremos.

Comer e beber são metáforas familiares que apontam para a satisfação de nossas necessidades espirituais. (Ver Jesus como o pão da vida, em Jo 6:48).

O milagre envolveu a multiplicação de matéria física, um ato de criação. Existem pessoas que, a despeito de aceitarem diversos outros milagres de Jesus, especialmente curas, negam este prodígio, achando que só pode ter tido origem psicológica ou psíquica. É evidente que, nessa ocasião, Jesus se utilizou de seus poderes divinos, ou, pelo menos, sobrenaturais, em vez de expressar a sua personali­dade humana, que no caso dele era extraordinaria­mente desenvolvida por causa de busca e experiência espirituais. Jesus usualmente usou esses poderes, disponíveis a qualquer indivíduo que use os meios fornecidos por Deus para desenvolver-se espiritual­mente. É verdade que nos utilizamos do poder do Espírito Santo, porém devemos lembrar que esse poder é dado ao homem não somente como instrumento para ser usado em separado da personalidade humana, porquanto o poder do Espírito Santo é outorgado ao homem para que faça parte de sua própria personalidade.

O plano do evangelho é transformar o ser humano até que ele se torne um ente superior, mais poderoso e mais inteligente do que os anjos; portanto, o poder do Espírito Santo vem fazer parte da expressão humana. Ver em Rm 8:29 sobre essa transformação do ser humano segundo a imagem de Cristo. Mas aqui, neste texto, achamos um tipo de milagre que certamente está além da capacidade da personalidade humana, pois se trata de um milagre que ilustra os poderes divinos de Jesus. Lembremo-nos que ele operou outros milagres sobre a natureza, como quando a água foi transformada em vinho (João 2), quando andou à superfície do mar (vss. 22,23 deste capítulo), ou quando fez cessar a tempestade (Mt 8:23-27), etc. Jesus, portanto, mostrou que era capaz de operar milagres de criação.

II. Interpretações

1. Interpretação natural. Como as pessoas que tinham levado alimentos repartiram-nos com os que nada tinham levado, quando Jesus distribuiu os dois peixinhos e cinco pães, e então todos fizeram o mesmo com o que cada um possuía, fica eliminado o elemento miraculoso. Essa é a interpretação exegéti­ca, pela qual não houve milagre, mas apenas exemplo moral.

2. Interpretação mitológica. Não há base histórica para essa narrativa. Mateus lançou mão de exemplos do V.T., como Êx 16; I Rs 17:8-16 e II Rs 4:1,42, onde há histórias de fornecimento de alimentos por meios milagrosos.

3. Há a interpretação simbólica, que diz que diversas referências feitas a Jesus como o pão da vida, ou a instituição da Ceia, etc, formaram a mentalidade da igreja sobre a necessidade de inventar (ou de admitir a existência de) um milagre dessa natureza. Essa interpretação nega que o milagre tenha qualquer base na realidade histórica.

4. Há a interpretação parabólica, que diz que a intenção do autor foi apresentar um tipo de parábola, e não a de narrar um acontecimento verídico. Todas essas quatro interpretações represen­tam esforços da imaginação. O texto não dá nenhuma indicação de tais possibilidades. É óbvio que a intenção dos quatro autores dos evangelhos foi mostrar que ocorreu um milagre notável na vida de Jesus.

5. A interpretação verdadeira é a que aceita a narrativa como um milagre notável e autêntico, feito por Jesus. Os intérpretes oferecem diversas ideias sobre á natureza do milagre e sobre o modo de agir de Jesus, como: a. Milagre abstrato, feito pelo poder divino, sem qualquer tentativa para explicar seja o que for, acerca das influências morais ou mentais que provocaram o milagre ou seu registro nos evangelhos. Essa ocorrência, pois, simplesmente demonstrou o poder divino de Jesus, que ultrapassa qualquer possibilidade de explicação, b. O milagre foi realizado a fim de ilustrar o poder miraculoso de Jesus e para ensinar lições espirituais e morais. Alguns intérpretes estendem essa ideia à eucaristia. O ato de Cristo serviu de exemplo ou símbolo da provisão de Deus para todas as necessidades do homem, em Cristo. Alguns expositores chegam a pensar que esse milagre foi símbolo do «milagre» da eucaristia, no qual o sangue e o corpo de Cristo são miraculosamente multiplicados, naquilo que se chama de doutrina da «transubstanciação». Aqueles que defendem essa interpretação também tentam explicar como o ato se verificou: a. pelo uso de matéria física já presente nos peixes e no pão, porém multiplicada. Assim Jesus não fez alguma coisa do nada, mas tão somente usou o seu poder para aumentar a quantidade de matéria já existente. Talvez seja possível essa explicação do milagre, mas dificilmente se pode afirmar outro tanto no que tange ao milagre da transformação da água em vinho; b. outros acham que o milagre deve ter incluído criação e não apenas multiplicação de matéria, o que o tornaria um milagre notabilíssimo, porque representou, em miniatura, uma nova criação. Por essa razão, sendo um milagre tão notável, é que os quatro evangelistas o teriam registrado. Todas essas explicações envolvem questões que dificilmente podem ser explicadas, porquanto nada se sabe sobre o poder de Deus quanto à criação da matéria. Pelo menos, podemos confirmar que o texto ensina um milagre verdadeiro, e que com grande probabilidade os autores dos evangelhos tiveram a intenção de ilustrar o notável poder de Jesus; outrossim, quiseram ensinar que Jesus era o pão da vida (conforme ele mesmo explica no sexto capítulo de João). A doutrina da transubstanciação, ensinada à base deste texto, não passa de um exagero de interpretação. Ver Mt 14:16,17.

A despeito do fato de que este texto relata um importante milagre de Jesus, também devemos notar que fica ilustrado, ao mesmo tempo, o intenso ministério de Jesus no tocante ao ensino. Durante todo esse tempo, a principal atividade de Jesus foi a do ensino. Ver Mt 15:32.

 

Bibliografia R. N. Champlin

 

FONTE:EBD AREIA BRANCA

O atalaia silencioso Ez 3:16-27

sexta-feira, 8 de julho de 2011

 

O atalaia silencioso Ez 3:16-27

16-21. Assim como Habacuque se postou na sua torre de vigia (Hc 2:1), assim também Ezequiel é nomeado atalaia para o povo de Israel (17). A expressão empregada é literalmente: "Dei-te para ser atalaia," o que significa que a nomeação de Ezequiel como profeta para avisar os exilados acerca da sua ruína iminente era, na realidade, um ato de graça da parte de Deus. O termo atalaia era comum para os verdadeiros profetas de Javé (cf. Is 56: 10; Jr 6: 17; Os 9:8). A função deles era ficar alerta à situação em derredor deles, escutar a palavra de Deus sempre que ela vinha a eles, e repeti-la ao povo com exatidão. Inevitavelmente isto significava que, tão frequentemente como o contrário, os profetas agiam como mensageiros de julgamento para um povo pecador, e Ezequiel não era exceção. Sua mensagem dizia respeito às consequências sérias do pecado. Para o perver­so, ou seja, o homem que não temia a Deus e vivia uma vida de desafio aberto aos Seus mandamentos, sua mensagem era: Certamente morrerás (18). O justo também precisava de ser avisado: se estava se desviando do caminho da justiça, precisava de uma advertência tanto quanto o perverso, e ainda que estivesse conservando-se na sua justiça, continuava necessitan­do do ministério constante de ser advertido a não pecar. O santo precisa dos avisos do atalaia tanto quanto o pecador.

Dizer, no entanto, que Ezequiel, mediante as suas advertências, salvaria a sua alma (19, 21) é muito enganoso. A palavra hebraica nepes tem uma vasta gama de significados, desde "garganta" até "pessoa," mas signi­fica "alma" somente no sentido em que chamamos uma pessoa de "uma alma." O hebraico não tem conhecimento de alma como uma parte consti­tuinte do homem. O homem era nepes, uma pessoa, uma unidade. A RSV, portanto, tem razão em traduzir "tu terás salvo a tua vida."

O que se quer dizer com o justo (20)? Devemos tomar o cuidado de não atribuir a doutrina do Novo Testamento ao Antigo e interpretar esta palavra à plena luz da justificação paulina. O justo (heb. saddiq) era essencialmente o homem que demonstrava, pela sua vida virtuosa, lealdade à aliança. Nem é preciso lembrar que era obediente na realização das observâncias religiosas necessárias, mas os profetas do século VIII deixam claro que muitos as realizavam com entusiasmo, e estavam longe de serem justos. Mesmo assim, dentro da esfera da comunidade da aliança, que incluía todos os israelitas, alguns seriam considerados como "tendo justiça" diante do tribunal imaginário da justiça de Deus, e assim possuiriam a retidão (heb. sedeq), ao passo que outros seriam condenados e classificados com os perversos. Não havia nenhuma regra prática fácil para guiar o homem em fazer esta avaliação, e não podia, portanto, haver qualquer coisa que se aproximasse de uma doutrina cristã da segurança. Ser atrevido para com a aliança era conhecidamente o primeiro passo no caminho para a condenação. Reduzida a uma base mínima, a qualificação para a justiça era a observância dos Dez Mandamentos, as estipulações da aliança. Na prática, porém, estes eram bem pouco observados, e as exigên­cias cultuais da lei mosaica recebiam, proporcionalmente, muito mais consideração; de modo que cada um dos profetas tinha de reiterar as exi­gências morais e espirituais da aliança para o benefício de uma geração mal ensinada. Destarte, as exigências constantes da justiça de Deus eram expostas: "Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos: cessai de fazer o mal. Aprendei a fazer o bem; atendei à justiça, repreendei ao opressor; defendei o direito do órfão, pleiteai a cau­sa das viúvas" (Is 1: 16-17). Ou, ainda: "Buscai o bem e não o mal . . . Aborrecei o mal e amai o bem, e estabelecei na porta o juízo: talvez o SENHOR, o Deus dos Exércitos, se compadeça do restante de José" (Am 5: 14-15). Ou, ainda: "Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o SENHOR pede de ti, senão que pratiques a justiça e ames a mise­ricórdia, e andes humildemente com o teu Deus?" (Mq 6: 8). Este não era nenhum ensino novo, pelo contrário, era uma chamada de retorno às exi­gências de Javé, o Deus de Israel, conforme a antiga aliança, que teve sua origem nos dias de Moisés e do monte Sinai. Era uma exigência de ações justas que refletiriam um coração (i.é, a totalidade da personalidade, abran­gendo a mente, a vontade, as emoções e as atitudes) humilde diante de Deus e um estado de paz (heb. sàlôm) com Ele. Tendo em vista este fa­to, fica claro que não se pensava na justiça como uma característica in­delével: podia ser por demais facilmente perdida, e então, os atos justos prévios do homem não valeriam nada.

O aviso que dizia que o perverso morreria tinha uma referência puramente temporal. Dentro dos limites de nossa compreensão, Ezequiel provavelmente não tinha um conceito claro sobre a ressurreição, e muito menos da vida eterna; e a ameaça inerente nesta palavra de advertência era que o perverso teria uma morte precoce ou violenta. A morte que vinha no fim de uma vida longa não era adversidade alguma, especialmente se o homem tinha filhos e netos para continuar seu nome após ele. Mas uma vida curta e um fim precoce eram castigos mesmo. Se isto acontecesse co­mo resultado da falta de profeta quanto a cumprir seu dever de advertir o perverso a se converter dos seus caminhos, Deus disse: O seu sangue da tua mão o requererei (18, 20). Esta alusão ao princípio expressado em Gê­nesis 9:5-6 subentende que, assim como o sangue de um homem assassina­do exigia a retribuição por meio do parente próximo vingar-se do assassino, assim também um homem que morria sem ser avisado em tempo seria con­siderado virtualmente a vítima de um assassinato cometido pelo atalaia que fracassara no seu dever. A questão é colocada metaforicamente, é cla­ro, mas nem por isso deixa de enfatizar a responsabilidade esmagadora con­fiada a Ezequiel. A responsabilidade do cristão no sentido de avisar uma geração perdida não é, por certo, menos aterrorizadora.

A palavra tropeço (20; heb. miksôl), como seu equivalente no grego do Novo Testamento, skandalon, significa uma "ocasião para tropeçar," ou literalmente, ou num sentido ético. Não indica aqui que Deus deliberadamente Se propõe a derrubar o justo e fazê-lo estatelar-se no chão, mas, sim, que deixa oportunidades para o pecado nos caminhos dos homens, de maneira que, se seu coração está decidido no sentido de praticar o pecado, poderão fazê-lo, e assim merecer a sua condenação. Não há nenhum sentido em que o tropeço é inevitável: sempre envolve a escolha moral, e havia, também, a palavra de advertência da parte do atalaia pa­ra indicar onde estavam os tropeços e o que eram.

22-27. Mais uma vez sob o efeito do êxtase, Ezequiel sai para o vale. A palavra significa literalmente uma "fenda," e, portanto, uma área entre montanhas: alguns a traduziriam uma "planície no vale." É muito possível que se refira a uma localidade específica que Ezequiel frequentava nos seus períodos de solidão, e era, sem dúvida, o lugar onde haveria de ter sua visão do vale (a mesma palavra) dos ossos secos (cf. 37: 1).

A frase a glória do SENHOR estava ali (23) resume, não somente uma parte, mas, sim, toda a visão que o profeta vira no capítulo 1. A lembrança que permanecia não era dos equipamentos do carro-trono celestial, mas, sim, dAquele que estava assentado sobre ele. Ezequiel também indi­ca que esta era uma localidade diferente daquela da sua visão original jun­to ao rio Quebar.

Não fica claro se esta visão adicional da glória do Senhor aconteceu quase imediatamente depois da sua comissão para ser atalaia, ou se, entre os vv. 21 e 22, houve um período em que Ezequiel profetizou de acordo com os termos que lhe foram dados. Se assim fizera, isto explicaria a apa­rente inversão da sua comissão que os versículos seguintes contêm. Falara a palavra de advertência da parte de Deus; não lhe prestaram atenção; por­tanto, agora foi ordenado a ficar confinado à sua casa, e silencioso. A dificuldade é que a cronologia destes primeiros capítulos quase não deixa tempo algum para isto. A diferença entre as datas de 1: 1 e 8: 1 é de so­mente um ano e dois meses, e se esse período deve incluir os 390 dias de ficar deitado sobre o lado esquerdo para o castigo de Israel (4: 5), so­bra pouquíssimo tempo para qualquer coisa senão um ministério brevís­simo como atalaia. Parece, portanto, preferível considerar 3:22-27 como o episódio final num período prolongado de comissionamento que durou vários dias, durante o qual aconteceram estas várias experiências culminan­tes, nas quais Deus falou para Ezequiel, e o curso e o padrão do seu minis­tério foram paulatinamente revelados. Seria improvável que um profeta, numa só teofania, obtivesse a compreensão, não só da sua chamada, como lambem da sua mensagem e da terrível responsabilidade da sua tarefa, e da maneira em que deveria cumpri-la. Para Ezequiel, tudo isto veio por eta­pas, e somente quando foi alcançada a última etapa é que foi conclamado a fazer seu primeiro pronunciamento público no drama simbólico das obras de cerco contra Jerusalém (4:1).

Aqueles que defendem um ministério abortivo entre estas duas se­ções argumentariam que a frase eis que porão cordas sobre ti (25) refere-se ou a restrições físicas impostas sobre Ezequiel por seus oponentes, ou, metaforicamente, ao silenciar dos seus oráculos por formas de oposição menos violentas mas igualmente eficazes. O mesmo tipo de interpretação não pode, no entanto, ser atribuído à profecia de sua mudez, e, portanto, é melhor pensar numa restrição auto imposta do que numa causada pela oposição aos oráculos anteriores. A RSV interpreta desta maneira ao to­mar o verbo "porão" como um plural impessoal, que denota voz passiva: "cordas serão postas sobre ti, e serás ligado com elas." É importante perce­ber que tanto o ligar com cordas quando a mudez "não eram para evitar o exercício da sua vocação, mas, pelo contrário, torná-lo apto para a reali­zação bem-sucedida da obra que recebeu (Keil). As limitações impostas sobre ele eram parte integrante da sua mensagem: eram uma demonstra­ção ritual ao povo de Israel que eram casa rebelde (26,27).

Farei que a tua língua se pegue ao teu paladar, ficarás mudo, e inca­paz de os repreender (26). O silêncio não deveria ser total: de vez em quando, Deus falaria com o profeta, e permitiria que passasse adiante uma men­sagem para seu povo. Esta mudez, portanto, não foi do mesmo tipo que aconteceu a Zacarias, pai de João Batista (Lc 1:20). Duraria um tempo limitado, até que a queda de Jerusalém fosse anunciada para os exilados cerca de seis anos mais tarde. Então chegaria ao fim (33:22). Outras re­ferências ao fato ocorrem em 24:27 e 29:21, mas em nenhum outro lu­gar. Neste Ínterim, Ezequiel teve chance de fazer muitos pronunciamen­tos, alguns em conjunção com suas mensagens silenciosas, encenadas, e outros como simples oráculos diretos. Em certa ocasião (20: 3) recusou-se a responder a alguns anciãos que vieram a ele "para consultar o SENHOR," mas não o fez sem dar uma explicação completa das razões para não sa­tisfazer a curiosidade deles. Noutras ocasiões em que os anciãos vieram pa­ra ele a fim de procurar seus conselhos, não há qualquer sugestão que não esperassem que ele lhes pudesse responder de maneira perfeitamente nor­mal (cf. 8:1; 14: 1). Já notamos várias sugestões no sentido de Ezequiel sofrer de catalepsia ou dalgum distúrbio nervoso grave, é já vimos que ne­nhuma explicação deste tipo, que introduz a disfunção orgânica ou psico­lógica, soluciona de modo satisfatório os problemas levantados por uma aceitação literal destas palavras. É muito mais satisfatório e realista enten­der que esta é uma mudez ritual, ou seja: uma recusa divinamente ordena­da de fazer pronunciamentos públicos, a não ser sob o impulso direto da palavra de Deus. Daquele momento em diante, Ezequiel seria conhecido unicamente como o porta-voz de Javé. Quando falava, era porque Deus tinha algo para dizer; quando ficava silencioso, era porque Deus estava si­lencioso.

As duas palavras hebraicas: hassõmêa' yismà', lit. "que o ouvinte ou­ça," ou "o que ouve ouvirá" (27), são o protótipo para a fórmula predileta do nosso Senhor: "Quem tem ouvidos para ouvir, ouça." A mensagem falada visa confirmar os homens na sua atitude para com o Deus que a inspi­rou: ou a escutarão e obedecerão, ou a desconsiderarão e serão condena­dos. A resposta do ouvinte é ditada pelo íntimo do seu ser.

 

Bibliografia J. B. Taylor

Fonte:EBD AREIA BRANCA

 

O atalaia silencioso

A LUTA CONTRA TODAS AS SORTES DE VÍCIOS

sábado, 25 de junho de 2011

 

 capa2T2011 Lição 13

26 de Junho de 2011

A luta contra todas as sortes de vícios

Texto Áureo

"Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se algu­ma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento". Fp 4.8

Verdade Aplicada

Há práticas que são legais e não se caracterizam como contravenções penais, mas nem sempre a lei está de acordo com os princípios bíblicos.

Objetivos da Lição

► Deixar claro que os vícios prejudicam e escravizam o homem.

► Conscientizar de que o corpo do salvo é habitação do Espírito Santo.

► Orientar que existe saída para as pessoas viciadas que confiarem em Jesus.

Textos de Referência

Dn 6.4 Então os presidentes e os sátrapas procuravam ocasião para acusar a Daniel a respeito do reino; mas não puderam achá-la, nem culpa alguma; porque ele era fiel, e não se achava nele nenhum erro nem culpa.

2 Co 5.17 E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.

Ef 4.22 No sentido de que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano.

Ef 4.24 E vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade.

Ajuda Versículos

Ajuda 1

Ajuda 2

Ajuda 3

Vícios

Um Estudo Sobre as Manifestações do Pecado

(Imperdível, leia até o final)

Esboço

I. Listas de Vícios

II. As Características do Pagão

III. Empregando o Método da Pêntada

IV. A Maior Lista de Vícios dos Evangelhos Sinópticos

V. Os Vícios Como Obras da Carne

VI. Os Vícios de II Tm 3:2-4: as Características dos Homens dos Últimos Dias

VII. O Vício do Ódio

VIII. O Vício da Idolatria

IX. O Mundanismo

I. Listas de Vícios

O estoicismo romano utilizava listas de vícios e virtudes para ensinar seus princípios éticos. Estas listas foram, às vezes, construídas sem qualquer desígnio especial, mas, outras vezes, em pêntadas alternativas de vícios e virtudes. Outros métodos foram empregados, talvez por razões de estilo literário ou para facilitar a decoração das listas, como, em tempos modernos, crianças na Escola Dominical decoram os Dez Mandamentos. A ética é o estudo da conduta ideal, e é impossível alcançar este ideal sem saber o que fazer e o que evitar. Ensinos sobre vícios e virtudes nos ajudam a determinar os elementos desejáveis e indesejáveis de ação moral. O Apóstolo Paulo emprestou este método de ensino do estoicismo romano, obviamente achando que tinha algum valor para o homem espiritual. Demonstrou, com estas listas, a seriedade do pecado, e ilustrou a profundidade do estado pecaminoso do homem. Longe de Cristo, o homem é, verdadeiramente, cheio de vícios.

Estudando o pecado. Alistando e examinando os muitos vícios dos homens, aprendemos muitas coisas sobre a própria natureza e manifestações dos pecados.

II. As Características do Pagão: Rm 1:23 ss

Por haverem desprezado o conhecimento de Deus. Paulo continua, neste ponto, a sua descrição acerca da mentalidade pagã, que rejeitava o conhecimento inerente do verdadeiro Deus, substituindo esse conhecimento pela idolatria, o que resulta nas degradações morais que o apóstolo ventila. A palavra grega, nesse caso, significa pleno conhecimento, no dizer de Vincent, in loc: «Não pensam esses homens que vale a pena conhecer a Deus. Pode-se comparar isso com I Ts 2:4... Não permitem eles que a revelação rudimentar, dada pela natureza, se desenvolva até o pleno conhecimento».

Disposição mental reprovável. Literalmente tradu­zida do grego, essa expressão significaria «não passam no teste». Trata-se de uma espécie de atitude mental que não pode ser aprovada por Deus, ficando subentendida uma atitude pervertida, à qual falta razão e bom senso. É uma atitude que rejeita o conhecimento inerente e que prefere criar absurdos. No original grego há um jogo de palavras, posto que o vocábulo que descreve como os homens desprezam o conhecimento de Deus também é usado em outra forma (a mesma raiz vocálica é empregada) para descrever a atitude mental a que Deus os en­tregou. É por esse motivo que Alford (in loc.) traduz: «Posto que reprovaram o conhecimento de Deus, Deus os entregou a uma mente reprovada». Também poderíamos traduzir essa sentença por: «Visto que eles desprezaram o conhecimento de Deus, Deus os entregou a uma mente desprezível»; ou ainda: «Visto que não aprovaram o conhecimento de Deus, Deus os entregou a uma atitude mental reprovável». E isso serve de demonstração da lei da colheita segundo a semeadura. Os homens recebem exatamente aquilo que semeiam.

Os Vícios dos Pagãos

Rm 1:29: estando cheios de toda a injustiça, malícia, cobiça, maldade; cheios de inveja, homicí­dio, contenda, dolo, malignidade;

Os adjetivos aqui utilizados, isto é, cheios e possuídos, demonstram claramente que o caso é maligno, característico do paganismo, agravado e contínuo, e não algo cometido ocasionalmente. Observemos que «toda» sorte de injustiça é que os caracteriza.

1. Injustiça. Essa palavra mui provavelmente é usada como termo geral para descrever o cabeçalho da lista. Sumaria a disposição mental característica que leva os homens a perpetrarem muitos tipos de maldades contra os seus semelhantes, maldades essas descritas a seguir.

«É o egoísmo, entronizado contra todo o direito alheio». (Newell, in loc).

«Trata-se de todo o vício contrário à justiça e à retidão». (Adam Clarke, in loc).

2. Malícia. Temos aqui a atitude mental de quem se deleita com a ruína, com o desconforto, com o infortúnio alheio; é uma atitude odiosa, que se deleita na perversidade. É o desejo de prejudicar, a malignidade de espírito que produz uma vida cancerosa. É a opressão do homem contra o homem.

3. Avareza. Representa o «eu» entronizado, o egoísmo total, — a mais completa desconsideração para com os direitos dos outros, que deseja todos os benefícios apenas para si mesmo. Está em pauta o amor intenso ao lucro, a qualquer preço, o gênio de uma alma perenemente insatisfeita com o que já possui, numa atitude extremamente materialista, que expulsa todos os motivos mais elevados. Esse pecado é invariavelmente classificado entre os piores vícios, porquanto é a própria antítese da piedade. Consiste em fazer do próprio «eu» um deus, conferindo a si mesmo o que pertence somente a Deus e aos nossos semelhantes (ver Jr 22:17; Hb 2:19; Mc 7:22; Ef 5:3; Cl 3:5 e II Pe 2:3, que são versículos bíblicos que abordam esse pecado). A passagem de Cl 3:5 define esse erro como «idolatria», porquanto se trata de um desejo pervertido de obter coisas, de desejar anelantemente as possessões materiais, como se a posse das mesmas pudesse satisfazer à alma, ficando assim criado um «deus» das riquezas. Sócrates comparava o homem avarento a um vaso todo esburacado. Sem importar o quanto fosse derramado em tal vaso, ele sempre desejava mais, jamais ficando cheio ou satisfeito. As almas dos ignorantes, no dizer de Platão, são esburacadas. (Ver Górgias, 493).

4. Maldade. Temos aqui a má vontade, numa atitude radical e essencialmente perniciosa. É bem possível que essa palavra seja aqui usada em sentido passivo, indicando um vício íntimo, que é a motivação por detrás das ações malignas mais francas. Trata-se daquela malícia que abriga o desejo de prejudicar os outros.

5. Possuídos de inveja. Trata-se de um sentimento de ódio contra alguém que nos é superior, quer em posição social, quer em qualidade de caráter, quer em possessão material, que desejamos mas não podemos obter. Assim é que lemos sobre Pilatos: «Pois ele bem percebia que por inveja os principais sacerdotes lho haviam entregue» (Mc 14:10). O Senhor Jesus era santo e bom, sem qualquer mácula em seu caráter; mas o hipócrita não podia tolerar tal coisa. A inveja consiste na tristeza de alguém em face do sucesso de outrem, bem como na alegria quando outro incorre em erro ou é derrotado (ver I Co 13:6).

«(A inveja) é a dor sentida e a malignidade concebida em face da excelência ou da felicidade de outrem». (Adam Clarke, in loc.).

«É a atitude errônea em face do conhecimento e da erudição superiores, em face das riquezas ou prosperidade, em face da felicidade e da prosperidade exterior de outros». (John Gill, in loc).

Os pagãos não somente tinham tal vício, mas eram também possuídos, pelo mesmo, o que nos mostra que os vícios os controlavam e não eles os vícios.

6. Homicídio. Esta palavra, no grego, tem um som similar à palavra anterior, e sem dúvida aparece na lista, nesta altura, simplesmente por esse motivo; e isso nos mostra, conforme afirmam alguns intérpre­tes, que essa lista não pode ser dividida em categorias bem claras e definidas. É simplesmente uma tentativa do apóstolo de fazer uma lista de um bom número dos pecados que caracterizavam o paganismo, sem qualquer ordem especial ou sem qualquer inter-relação entre esses pecados. Todos esses vícios caracteri­zam ações antissociais, conforme vemos nos versículos vigésimo quarto a vigésimo sétimo, que apresentam uma lista de pecados pessoais, morais. Só podemos fazer essa divisão sobre os vícios humanos, mas qualquer coisa mais detalhada do que isso tende para a artificialidade.

O homicídio é um ato da mais pura violência, que se deriva de uma perversão íntima, inspirada por qualquer dos vícios anteriores. A inveja pode causá-lo; a avareza também pode produzi-lo; a má vontade íntima, que abriga o desejo de prejudicar a outros também pode ser sua fonte; e a malícia, que se deleita na ruína do próximo, pode ser a sua base fundamental. O trecho de Mt 5:21-26 nos mostra que o ato de homicídio é mais do que um ato desenfreado; pode ser também uma atitude interna, um sentimento de ódio cultivado contra outrem. Muitos daqueles que não ousariam matar a outro, mediante essa atitude íntima criticam e prejudicam seus semelhantes com suas palavras, cometendo autênticos assassinatos de caráter. Essa atitude é tão comum na igreja cristã que se tornou proverbial; pois o que é mais comum do que se falar sobre as «maledicências» das senhoras de uma igreja, quando elas se reúnem em grupo? E muita gente boa é vitimada por esses homicidas morais.

Esse pecado se tem tornado tão generalizado que se tornou motivo de piadas e palavras impensadas, em vez de ser severamente censurado. O ódio íntimo contra outra pessoa é uma forma de assassinato; e quem não se tem tornado culpado disso, numa ou noutra ocasião? E existem almas mais egoístas que são continuamente culpadas desse pecado? (Que o leitor consulte o trecho de Mt 5:21-26)

7. Contenda. Literalmente traduzida do grego, essa palavra significa o espancamento produzido quando de alguma desavença. «Verdadeiramente, quão repleta de contendas é esta raça humana!» Newell. No entanto, a mitologia grega criou desse vício uma deusa!

8. Dolo. Encontramos nesta palavra o espírito e a prática da mentira, da falsidade, da prevaricação, da desonestidade. Essa palavra portuguesa se deriva do verbo grego delo, que significa «apanhar com uma isca», ou seja, enganar mediante falsificação. O Senhor Jesus designou Natanael como «Eis um verdadeiro israelita em quem não há dolo!» (Jo 1:47). Homens como Natanael são extremamente raros. A sociedade humana virtualmente sobrevive em meio ao ludibrio, especialmente no que diz respeito ao mundo dos negócios. Usa-se de engano nas escolas, no comércio e nas relações pessoais que se baseiam na confiança mútua; os homens preferem usar do ludibrio à honestidade; são mentirosos no coração e são mentirosos com a língua.

9. Malignidade. Diz Adam Clarke (in loc), a respeito disso: «Essa atitude consiste em aceitar tudo no pior sentido... o que leva o seu possuidor a dar a interpretação mais negativa a toda a ação. Aos melhores atos, se dá o pior motivo». Trata-se de um sentimento especialmente pernicioso, sendo uma perversão do espírito que se deleita na maldade e que a vê em tudo, mesmo onde ela não existe. É indicação de uma disposição totalmente maliciosa.

Rm 1:30: sendo murmuradores, detratores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais;

10. Difamadores. O vocábulo grego produz um som sibilante, que provavelmente era produzido em imitação àqueles que habitualmente se mostram caluniadores. O som sibilante sugere o sibilo da serpente, porquanto a língua ferina com grande frequência tem sido assemelhada aos ataques furtivos e repentinos das serpentes venenosas. O pecado aqui referido é aquele cometido pelos «caluniadores em secreto», e o versículo trinta começa a falar sobre os «caluniadores». O fato é que os «caluniadores» não são melhores do que os difamadores. São igualmente peçonhentos e destruidores em seus ataques. O termo usado neste vigésimo nono versículo se refere àqueles que secretamente se dirigem a alguém, transmitindo-lhe alguma informação que supostamente é só para esse alguém. Mas, ao assim fazerem, atacam difamadoramente o caráter de outro, em sua reputação, lançando dúvidas sobre a sua honestidade ou outra virtude, procurando armar um escândalo qualquer.

11. Caluniadores. Essa palavra designa aqueles que fazem, aberta e publicamente, aquilo que os «difamadores» fazem em segredo, na surdina. O termo usado no presente versículo significa «falar contra», subentendendo, normalmente, os acusadores falsos ou caluniadores. O leitor pode examinar o trecho de I Pe 2:12, onde se comenta sobre o uso dessa palavra.

12. Aborrecidos de Deus, indica aqueles que desafiam abertamente a toda autoridade, não temendo nem a Deus e nem aos homens. E embora supostamente cônscios do desprazer divino, não se deixam refrear por tal conhecimento. Odeiam a todos os objetos sagrados, e ridicularizam daqueles que creem em Deus e na alma. São totalmente profanos, e ainda se ufanam disso. Demonstram seu ódio pelas coisas sagradas porque, no íntimo, odeiam a Deus. Essa rebelião contra Deus, que caracteriza a todos os corações não convertidos, domina tais pessoas completamente. Servem tais indivíduos de suprema ilustração da verdade que «o pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar» (Rm 8:7). São pessoas que não mostram apenas uma irreligiosidade passiva, mas são antes ativas e declaradamente profanas. No dizer de Adam Clarke (in loc): «Parece ser esse o toque de acabamento de um caráter diabólico».

13. Insolentes. Essa palavra descreve os homens que têm prazer em insultar e injuriar seus semelhantes. — Em sua forma verbal, signi­fica «tratar com injuriosa insolência». São os indivíduos tempestuosos, turbulentos e abusivos de caráter. Conforme comentou John Knox (in loc.): «...uma atitude desavergonhada que não se deixa vergar à atitude de reverência, nem se humilha ante a própria conduta errada, nem restringe a sua própria conduta, sem importar a consciência que porventura tenham da presença de Deus. Naturalmente, daí se segue que se mostram altivos em suas relações com seus semelhantes, porquanto são insolentes em sua atitude para com Deus, motivo também porque não mostram qualquer senso de restrição em sua autoglorificação e nos louvores com que favorecem a si próprios».

14. Soberbos, isto é, tomados de orgulho altivo. É o vício de caráter daqueles que louvam a si mesmos, demonstrando uma atitude exatamente oposta à do Senhor Jesus, que disse: «Vinde a mim todos... porque sou manso e humilde de coração...» (Mt 11:28-30). Em contraste com o Senhor Jesus, tais indivíduos estão tão repletos de si mesmos que não têm espaço algum de sobra para a consideração sobre as coisas relativas a Deus ou aos seus semelhantes. Gloriam-se em seus supostos poderes e realizações, desprezando aos outros. Essa palavra se deriva de uma combinação de palavras que tem o sentido de «brilhar acima». Querem que os outros recebam suas palavras, como se fossem oráculos. Magnificam o espírito de Satanás, e pregam na atitude de Nietzsche e de Trasímico, que viveu muito antes deles, os quais diziam que «a força é o direito».

Não nos podemos equivocar quanto ao fato inegável de que uma geração selvagem e descontrolada está entesourando para si a punição, talvez mesmo de uma forma nacional e catastrófica, como uma guerra atômica, acompanhada da fome, da miséria, das revoluções sociais e do destroçamento econômico, que terá lugar nos últimos tempos. As tribulações pelas quais o mundo passará, no inicio do presente século XXI, pelo menos em parte se deverão à natureza descontrolada e desvairada da atual geração jovem, que não considera coisa alguma sagrada. A lei da colheita segundo a semeadura é inflexível, porquanto tudo quanto um homem semear, isso também ceifará.

15. Presunçosos. Essa palavra se deriva, no original grego, do verbo que significa «supor», «tomar», «arrebatar», «agarrar», indicando uma atitude de vangloria, de egoísmo e de arrogância.

16. Inventores de males. «São os inventores de instrumentos destruidores, a exemplo de Alexandre o Grande. São os inventores de novas modalidades de vícios morais, a exemplo de Nero, —que exibiu em espetáculo a tortura dos cristãos, em seus jardins, tendo chegado ao extremo de convidar seus hóspedes a contemplarem tal espetáculo. São aqueles que têm inventado costumes, ritos, modas, etc, de caráter destruidor. Entre esses podemos citar aqueles que criaram certas cerimônias religiosas diferentes entre os gregos e os romanos, como as orgias de Baco, os mistérios de Ceres, as lupercálias, as festas da Bona Dea...Multidões de cujas maldades, na forma de cerimônias destruidoras e abomináveis, se encontram sempre, por toda a adoração pagã» (Adam Clarke, in loc).

17. Desobedientes aos pais. Temos aqui um pecado tão moderno e comum em nossos dias, que nem choca mais os nossos ouvidos. No entanto, tal pecado era extremamente chocante para os antigos judeus, com seu código moral mui estrito em certos particulares, o que fazia com que esse pecado fosse considerado por eles como uma falta gravíssima. Literalmente traduzida, essa palavra grega significa «incapazes de serem persuadidos pelos pais». A passagem de II Tm 3:1,2 revela-nos que essa péssima característica humana seria própria dos últimos dias. Esse pecado é uma maldição para o desenvolvimento harmonioso da família, estendendo-se à comunidade inteira dos homens, servindo de verdadeira praga da sociedade. Um dos poucos mandamentos vinculados a uma promessa é aquele que nos ordena respeitarmos e honrarmos nossos genitores: «Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá» (Êx 20:12). E com isso podemos comparar o que diz o trecho de Pv 30:17: «Os olhos que zombam do pai, ou desprezam a obediência da mãe, corvos do ribeiro arrancá-los-ão, e os pintãos da águia os comerão».

Com frequência o castigo é adaptado à natureza do pecado cometido; ocasionalmente, entretanto, o castigo não tem conexão alguma aparente com o delito. Uma coisa é certa: nenhum pecado deixa de receber a sua justa retribuição.

Rm 1:31: néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, sem misericórdia;

«Esta passagem bíblica se aproxima de seu final inexorável. A bancarrota completa do homem sem Deus fica demonstrada pelo seu fracasso intelectual, na falta de lealdade às suas obrigações, no terreno da vontade e das ações, bem como na ausência dos apegos emocionais mais simples e naturais. Neste ponto, uma vez mais, a vida de sua própria geração ilustrava amplamente os males aos quais Paulo se referiu apenas de passagem. Visto que «a afeição natural» se ausentara, tanto o divórcio como o infanticídio se tinham tornado extremamente comuns. Quando o vínculo verdadeiro que deve unir homem e mulher se afrouxa, nenhum outro laço é suficiente para mantê-los juntos; quando aqueles que são responsáveis pela procriação dos filhos não se sentem obrigados a aceitar nem mesmo a mais simples responsabilidade por eles, uma nova vida não tem qualquer segurança, porque também não tem valor. Dois outros comentários completam o delineamento oferecido por Paulo sobre a vida humana, quando os homens tentam se separar de Deus. A amargura e o ressentimento se cristalizam na forma de um endurecimento invencível, e as fontes mais naturais da misericórdia se ressecam». (Gerald R. Cragg, in loc).

18. Insensatos. Alguns intérpretes pensam que essa palavra envolve alguma forma de insensibilidade moral, traduzindo-a por «sem entendimento moral». (Pode-se comparar isso com Mt 13:14,15; 19:23, 51). Na forma de adjetivo, pois, esse vocábulo pode significar exatamente isso, a falta de entendimento sobre as realidades divinas, a ausência de discerni­mento moral apropriado. E posto que essa palavra foi usada aqui em um contexto teísta, e posto não ser provável que o apóstolo Paulo quisesse dizer que tais pessoas não tivessem compreensão sobre as realidades materiais, como as ciências, etc, é bem provável que devamos compreendê-la em sentido religioso, ainda que, literalmente, tal vocábulo queira dizer, mera­mente, «desconhecedores». Essa mesma palavra é usada no versículo vigésimo primeiro, para indicar uma descrição sobre o «coração», isto é, um «coração insensato», desconhecedor das realidades divinas».

19. Pérfidos, ou seja, sem «boa fé», «infiéis», no sentido de que tais indivíduos não sentem obrigação alguma a contratos ou acordos, pois as suas promessas são sem valor. Essa palavra indica uma espécie de mentalidade de quem não tem a intenção de cumprir promessas, votos ou pactos.

«Contratos comerciais rompidos, tratados nacionais violados, confianças pessoais facilmente traídas, tudo isso tem raiz nessa odiosa condição da alma» (Newell, in loc).

«Assim como todo o pacto ou acordo é feito como que na presença de Deus, assim também aquele que se opõe ao ser e à doutrina de Deus é incapaz de sentir-se obrigado ante qualquer aliança; não pode comprometer-se a uma determinada conduta» (Adam Clarke, in loc).

20. Sem afeição natural. Essa falta de afeição pode ser vista no caso das criancinhas abandonadas, em que os genitores não se importam com o seu bem-estar; mas tal atitude cruel também pode ser percebida na atitude de tantos filhos desumanos para com seus pais. Entretanto, essa palavra envolve relações mais amplas contra a outra, já que os homens, simples­mente porque são seres humanos, normalmente sentem interesse e cuidados pelos seus semelhantes. Por motivo desses cuidados naturais é que se desenvolveram instituições como a educação, os hospitais, os centros sociais e os governos justos, para nada dizermos a respeito das instituições espirituais, como as escolas religiosas e as igrejas. Alguns indivíduos, entretanto, são tão imperfeitamente desenvolvidos espiritualmente que não se importam em prejudicar, física ou espiritualmente a outros homens, ou mesmo a assassiná-los. É entristecedor e lamentável o fato de que os maiores heróis da história humana também têm sido os seus mais fabulosos homicidas, e não aqueles que têm realmente ajudado aos seus semelhantes a progredirem de alguma forma. A história política pouco mais é do que a crônica sobre as atrocidades que os homens têm cometido contra os outros homens. Todas essas coisas lamentáveis servem de provas supremas da avaliação paulina sobre a raça humana, quando vive longe de seu Deus.

«Deus 'deleita-se na misericórdia'; mas a 'desumanidade do homem contra o homem faz milhões chorarem'. Considerai: um Deus misericordioso! criaturas destituídas de misericórdia!» (Newell, in loc).

«Os pagãos, de modo geral, não sentem escrúpulos por exporem às intempéries (a fim de que morram), as crianças que julgam não serem dignas de sobreviver, e nem sentem escrúpulos por deixarem seus pais morrerem, quando se tornam idosos e não podem mais trabalhar». (Adam Clarke, in loc).

O vocábulo grego aqui utilizado significa, estrita­mente, «amor aos parentes de raça», com a partícula negativa. Porém, provavelmente estamos corretos ao compreendê-lo no sentido mais profundo do amor para com qualquer ser humano, porque todos os homens, em certo sentido, o sentido físico, são nossos irmãos e, em outro sentido, o espiritual, são nossos semelhantes.

21. Sem misericórdia. O original grego significa exatamente isso: o negativo é prefixado à palavra «misericórdia». Diz-se que Nero se divertia torturando insetos, arrancando-lhes as asas, as pernas, etc, quando era criança. Na sua idade adulta entretinha seus convidados, nos jardins de seu palácio, em Roma, com a tortura e o assassínio de incontáveis cristãos. Foi ele o iniciador das primeiras perseguições oficiais ferozes do império romano contra os cristãos. Não existem muitos homens sem entranhas como Nero, mas até mesmo os indivíduos mais excelentes podem descobrir, em si mesmos, especial­mente em explosões de ira, o ódio e a sanha destruidora, em lugar da gentileza e da misericórdia. Até mesmo os chamados bons cristãos, às vezes, mostram-se tão amargos em suas palavras que ferem aos seus semelhantes, incluindo nesses ataques, não raramente, até mesmo as pessoas melhores e mais santas. A miséria que o mundo sofre, por motivo da falta de compaixão é surpreendente, tendo criado aquilo que os filósofos denominam de «problema do mal moral», isto é, como se pode explicar a existência de tantos males à face da terra, inspirados pela vontade humana?

Variante Textual. A palavra implacáveis aparece também nesta lista, em alguns manuscritos posterio­res, como Aleph(3), CD(3), KLP, no que são seguidos pelas traduções AC,F,KJ e M. Todas as demais traduções, usadas para efeito de comparação nesta enciclopédia, omitem tal palavra, seguindo a evidência textual superior, isto é, os manuscritos P(40), Aleph(l), ABD(l), EG. Algum escriba deve ter aumentado levemente a lista de vícios já por si devastadora, como uma característica humana per­versa, de acordo com a realidade dos fatos, pois a ideia da implacabilidade envolve um espírito maldo­so, tão vil e violento, que não aceita conciliação, mas sempre prefere a vindita, a violência e a injúria. Essa atitude é própria daqueles que proposital e maliciosa­mente rejeitam a «paz». Ninguém pode pacificar tal indivíduo, porquanto suas fibras íntimas foram entretecidas com a própria fibra da vingança e da destruição. Tais pessoas não se interessam nem pela reconciliação com Deus, e nem com os seus semelhantes.

Um missionário que trabalhou há muitos anos atrás, R. H. Graves, que passou muitos anos na China, narrou que um chinês, ao ler esse capítulo, declarou que o mesmo não poderia ter sido escrito pelo apóstolo Paulo, mas somente por um missionário evangélico moderno que tenha estado na China poderia fazê-lo. Contudo, o que alguém chegue a dizer sobre a China pode ser aplicado ao mundo inteiro, porquanto Paulo descrevia a natureza aviltada da raça humana inteira, quando se encontra afastada de Deus. Mais adiante o apóstolo dos gentios haveria de mostrar como os homens podem ser redimidos, até mesmo de um estado tão moralmente aviltado como esse. Isso significa que há esperança para todos, porque se Deus pode corrigir tais males, nada existe que ele não possa fazer.

Resultados

Rm 1:32: os quais, conhecendo bem o decreto de Deus, que declara dignos de morte os que tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que as praticam.

O Decreto de Deus

1. Deus determinou a ira para a incredulidade e a rebelião (ver Rm 1:18).

2. Os homens reconhecem intuitivamente esse decreto, da mesma maneira que reconhecem a Deus. Certo homem dizia: «Temo que a Bíblia diz a verdade!». O que ele queria dizer é: «Continuo em meu caminho de rebeldia; a Bíblia diz: Haverás de colher o fruto de tuas ações. Espero, pois, que a Bíblia esteja equivocada!» Ora, mesmo sem a Bíblia, os homens sabem que isso expressa a verdade.

3. A opção é entre o julgamento e o caos, pois se o bem não será galardoado e se o mal não será punido, então este mundo se transforma em caos, porquanto opera sem razão e sem alvo.

4. O homem, em sua apostasia e em seus múltiplos vícios, desafia a Deus para que faça algo a respeito. Mas, em seu coração, ele sabe que Deus o fará, em algum tempo, em algum lugar. Sua alma talvez chegue mesmo a desejar essa providência divina, inconscientemente, pois os juízos divinos armam o palco para o exercício de sua misericórdia (ver Rm 8:32), sendo eles corretivos, e não meramente retributivos (conforme aprendemos em I Pe 4:6).

5. O homem pode continuar a usar seu livre arbítrio para o mal, mas algum dia, Deus porá ponto final em tudo isso. O julgamento divino é a única coisa capaz de retificar novamente as tortuosidades tão laboriosamente criadas pelo homem. Assim sendo, que venha o julgamento divino!

Aprovação social ao pecado: os homens aprovam os pecados alheios. O pecado é mutuamente aprovado.

1. Um homem pode querer fazer muitas coisas — encorajado pela turbamulta, as quais não realizaria doutro modo. Isso se aplica ao caráter geral de sua vida. Um homem, aplaudido pela multidão, é capaz de pôr em prática um vício qualquer. Os homens apreciam praticar juntos os seus vícios e, com frequência, os mais horrendos pecados se tornam formas de entretenimento.

2. Este versículo ensina-nos como os homens «aprovam» os pecados de seus semelhantes. Por certo isso os encoraja a prosseguirem. Essa «aprovação» (quase sempre mútua) serve de uma espécie de desculpa psicológica para o erro. Eu faço isto ou aquilo; aquele outro também o faz; portanto, deve ser algo que para nós está certo! Mas então a consciência irrompe com o grito de Mentiroso!

3. Uma das mais solenes declarações de Jesus é aquela que nos adverte de que aquele que encoraja a outrem ao pecado, será mínimo no reino dos céus (ver Mt 5:19). É uma insensatez alguém pecar sozinho, de modo proposital. É loucura encorajar outros a fazê-lo.

4. Quais são os verdadeiramente grandes? São aqueles que obtêm a aprovação de outros no tocante ao que fazem? Não. São aqueles que observam os mandamentos de Deus.

5. Podemos observar que, em nossa época, até mesmo o terrorismo, os homicídios e a violência em massa, são erros aprovados por certas organizações, e esses erros são mesmo considerados ali como «causas santas». A ira de Deus fará reverter todos esses juízos humanos pervertidos. Alguns homens caminham de cabeça para baixo no teto, mas chamam-no de soalho.

«Que tremenda descrição sobre este mundo de pecadores, desta raça de alienados da vida de Deus, que estão em inimizade contra Deus e que vivem a contender uns com os outros! Mas todos estão em uma unidade infernal da maldade!» (Newell, in loc).

III. Empregando o Método da Pêntada: Cl 3:5 ss

«Paulo, em Cl 3:5 ss, adota uma forma literária que não se acha em qualquer outra porção de suas epístolas. Em vez de apresentar um catálogo geral de vícios pagãos, conforme se vê em Rm 1:26-31 e Gl 5:19,21, ele usa aqui o esquema artificial das pêntadas — duas de vícios e uma de virtudes. Dificilmente isso teria sido de sua invenção, não tem conexão necessária com qualquer coisa em seu próprio pensamento. É possível que seus adversários, em Colossos, tivessem traçado esquemas similares, com base na correspondência com os cinco sentidos, que constituiriam os apetites do homem natural. Entretanto, visto que a mesma forma é usada na primeira epístola de Pedro (notemos a pêntada de vícios em I Pe 2:1, e a pêntada de virtudes em I Pe 3:8), provavelmente temos aqui uma convenção dos moralistas helenistas». (Beare, in loc). (Quanto a essas pêntadas (grupos de cinco) ver o quinto versículo (a primeira) e o oitavo versículo (a segunda). Notemos também o décimo segundo versículo, onde há uma pêntada de virtudes, perfazendo um total de três pêntadas).

O homem, seu próprio maior inimigo Há uma antiga lenda escocesa que conta acerca de um fazendeiro que se viu a braços com um horrível monstro destruidor. O monstro derrubou seus celeiros, matou e espalhou seu gado, arruinou suas plantações e, finalmente, matou seu próprio filho primogênito. Entristecido e irado, o que venceu momentaneamente o seu terror, resolveu caçar o monstro e matá-lo. Assim, em uma noite fria, se pôs de tocaia em uma ravina. A memória do que o monstro fizera, conservava-lhe a coragem. Repentina­mente, ele ouviu suas passadas pesadas, que se aproximavam. Enfurecido, lançou-se para a frente, soltando um grito de guerra. Seu impulso lhe deu uma vantagem temporária, e o monstro foi derrubado. Mas o monstro era mais forte que o homem havia antecipado, e não demorou a revidar com golpes e maldições. O fazendeiro começou a ser dominado, mas, em desespero de causa, reiniciou a luta heroicamente, de tal modo que enfraqueceu o monstro. Finalmente, o monstro foi subjugado. O fazendeiro puxou da espada e se preparou para desfechar o golpe mortal. Nesse momento, um raio de luar incidiu sobre o rosto do monstro. Horrorizado, o fazendeiro retrocedeu — o rosto do monstro era o seu próprio rosto!

Pêntada de Cl 3:5

1. Prostituição. No grego é porneia. A melhor tradução aqui seria «imoralidade», porque tal pecado não é apenas o tráfico comercial do sexo, conforme a palavra «prostituição» significa para nós. A tradução «fornicação», que algumas versões usam, também não é boa, pois essa palavra tem o sentido, hoje em dia, de pecados sexuais praticados antes do casamento. A palavra é usada mui geralmente a fim de indicar todas as formas de pecado sexual, a despeito do fato de que se deriva do vocábulo grego porne, «prostituta». Trata-se do agir como uma prostituta, com sua mentalidade e seu estilo de vida. Esse vício também figura em Ef 5:3,

2. Impureza. No grego é akatharsia, isto é, qualquer forma de «impureza moral»; mas também está em foco qualquer impureza espiritual ou física. No presente contexto, porém, mui provavelmente estão em foco as impurezas sexuais, que corrompem o indivíduo, espiritual e fisicamente. Esse mesmo vício também aparece em segundo lugar na lista de Ef 5:3, onde figura a palavra «toda», isto é, toda a forma de «impurezas». Os pagãos se caracterizavam por muitos vícios sexuais, que eram chocantes para a mentalidade judaica, pelo que também em todas as listas de vícios, os pecados sexuais são os mais atacados, e isso sob boa variedade de termos.

3. Paixão lasciva. No grego é pathos. Não se encontra na lista de vícios da epístola aos Efésios. Tal vocábulo pode indicar anelos bons ou maus, dependendo do modo como é empregado. Pode indicar uma emoção passiva ou ativa; mas, usualmen­te, é usado para indicar paixões violentas e prejudiciais, que irrompem na forma de cólera, de ira descontrolada. Também é usada essa palavra em Rm 1:26, onde tem sentido sexual, isto é, «paixões infames», como o homossexualismo ou a concupiscência desordenada. É bem provável que o apóstolo dê aqui prosseguimento aos sentidos «sexuais» deste versículo, o que aponta para paixões ilegítimas e descontroladas. Em Herm. 4,1,6, essa palavra é usada para indicar uma mulher adúltera.

4. Desejo maligno. No grego é peithumia, acompanhada essa palavra do adjetivo kaken, «maligno», palavra que também não faz parte da lista de vícios da epístola aos Efésios. Indica todos os «anelos» malignos e «desejos desviados». Tal palavra era usada positiva ou negativamente; aqui temos o último caso, com o acréscimo da palavra «maligno». Trata-se do desejo pelo que é proibido e pervertido, os desejos insensatos (ver I Tm 6:9); as paixões da mocidade (ver II Tm 2:22); os desejos dominadores, que levam a práticas pecaminosas (ver I Pe 1:14); as paixões contaminadoras (ver II Pe 2:10), os desejos enganadores (ver Ef 4:22); os desejos da carne (ver Ef 2:3; I Jo 2:16 e II Pe 2:11). Esses são outros exemplos do uso dessa palavra no N.T.

5. Avareza. Trata-se do desejo de possuir coisas pertencentes a outros, a cobiça pela fama, pelo lucro ou pelas vantagens terrenas. Esse vício se encontra na lista de Ef 5:3,5, no contexto semelhante. Entretanto, ali é ensinado que, entre os outros vícios, nem deveríamos nomear tal coisa como característica de um «santo». O quinto versículo, tal como o presente, identifica-o com a «idolatria». O trecho de Ef 4:19 também envolve essa palavra, onde se lê que é uma coisa que não deveria caracterizar os que «aprenderam de Cristo». O indivíduo adora àquilo que ama, seja o dinheiro, as vantagens sociais ou os prazeres. E isso se torna o seu «deus», o seu ídolo, o que significa que suplanta o lugar de Deus em sua vida. Os moralistas estoicos viam esse pecado como a fonte originária de todos os males. O trecho de I Tm 6:16 expressa ideia similar, embora ali o «dinheiro» seja o ofensor, isto é, apenas uma das várias coisas que tornam um homem um idolatra. A equiparação da cobiça com a idolatria é correta, e mostra que apesar de hoje em dia poucos adorarem ídolos de madeira e pedra, contudo, quase todos os homens continuam sendo idolatras.

Cobiça.

1. Vem do coração (ver Mc 7:22,23).

2. Embota o coração (ver Ez 3:31 e II Pe 2:14).

3. É idolatria (ver Ef 5:5 e Cl 3:5).

4. É uma raiz de todos os males (ver I Tm 6:10).

5. Nunca se satisfaz (ver Ec 5:10 e Hb 2:5).

6. É vaidade (ver Sl 39:6).

7. Não convém aos santos, pois lhes é elemento deletério (ver Ef 5:3 e Hb 13:5).

8. É especialmente errada nos ministros da palavra (ver I Tm 3:3).

O que é idolatria. Consideramos as ideias abaixo.

Referências e ideias.

A idolatria:

1. A idolatria é proibida (ver Êx 20:2,3 e Dt 5:7).

2. A idolatria consiste em se prostrarem os homens perante imagens de escultura (ver Êx 20:5 e Dt 5:9).

3. Consiste em sacrificar perante imagens de escultura (ver Sl 106:38 e At 7:41).

4. Consiste em adorar a outros deuses (ver Dt 3:17 e Sl 81:9).

5. Consiste em ir após outros deuses (ver Dt 8:19).

6. Consiste em adorar ao verdadeiro Deus por meio de alguma imagem de escultura, etc. (ver Êx 32:4-6 com Sl 106:19,20).

7. A idolatria é descrita como uma abominação a Deus (ver Dt 7:25).

8. É odiosa para Deus (ver Dt 16:22 e Jr 44:4).

9. É desprezível (ver I Pe 4:3).

Pêntada de Cl 3:8

1. Ira. (Ver Ef 4:26). — Esta passagem é paralela a Ef 4:26, e a maioria dos vícios também são referidos dentro da metáfora do «despir» do mal e do «vestir» a nova natureza. O grego diz aqui «orge». Esse vocábulo também figura em Ef 4:31. Significa «ira», «indignação», sendo uma emoção alicerçada sobre uma disposição dura e amarga. É uma das obras da carne, tal como o são todos os outros vícios mencionados, tanto no quinto versículo como aqui (ver Gl 5:19,20).

«Melhor é o longânimo do que o herói da guerra, e o que domina o seu espírito do que o que toma uma cidade» (Pv 16:32).

A ira consiste na impaciência com o próximo, em que são usadas palavras de despeito, maculados pelo egoísmo contra o próximo, — de mistura com sentimentos de superioridade e de ódio.

«Há quatro tipos de disposição. Em primeiro lugar, há aqueles que facilmente se iram mas facilmente são pacificados; esses ganham por um lado e perdem por outro. Em segundo lugar, há aqueles que não se iram facilmente, mas só com dificuldade são pacificados; esses perdem por um lado e ganham por outro. Em terceiro lugar, aqueles que dificilmente se iram e facilmente se deixam pacificar; esses são os bons. Em quarto lugar, há aqueles que facilmente se iram, e só com dificuldade se deixam pacificar; e esses são os ímpios». (Midrash hannalam, cap. v.ll).

«A ira começa com a insensatez e termina com o arrependimento». (John Dryden).

«Temperamente: qualidade que, nos momentos críticos, produz o aço da melhor qualidade e o que é pior nas pessoas». (Oscar Hammling).

«A melhor resposta para a ira é o silêncio». (Provérbio alemão).

«A resposta branda desvia o Furor, mas a palavra dura suscita a ira» (Pv 15:1).

Referências e ideias.

A ira:

A ira é proibida (ver Ec 5:22 e Rm 12:19).

2. É uma das obras da carne (ver Gl 5:20).

3. Caracteriza aos insensatos (ver Pv 12:16).

4. É companheira da crueldade (ver Gn 49:7).

5. Acompanha a desavença e a contenda (ver Pv 21:19 e 29:22).

2. Indignação. No grego é thumos, alistado em Gl 5:20 como uma das obras da carne. Em Ef 4:31 também está vinculada à palavra anterior, embora figure antes dela. Significa «paixão», «ira apaixona­da», «cólera», «explosão de ira». Talvez a primeira forma, «orge», fale de uma disposição fixa, ao passo que esta última alude a manifestações súbitas, explosivas, embora os dois vocábulos, com frequência, sejam meros sinônimos.

3. Maldade. No grego é kakia, palavra de mui lata aplicação, como «depravação», «impiedade», «vício», «malícia», «má vontade», «malignidade». Por ter um significado tão amplo, ao usá-lo. Paulo ataca grande variedade de maldades. Inclui até mesmo a ideia de «prejudicar ao próximo» (Suidas), mas envolve até mesmo mais do que isso. É termo empregado também em I Co 5:8; 14:20; Ef 4:31; Tt 3:3 e I Pe 2:1. Aparece num total de onze vezes, nas páginas do N.T.

4. Maledicência. No grego é blasphema, a fala abusiva contra Deus ou contra os homens. A linguagem abusiva contra Cristo também é assim chamada (ver Mt 27:39 e Mc 15:29). (No tocante a tal abuso contra o nome de Deus, ver Rm 2:24; II Clemente 13:2; I Tm 6:1 e Ap 1:36). Trata-se da difamação, da injúria contra a reputação alheia, contra a calúnia, conforme se vê em I Co 4:13 e At 13:44 e 18:6, onde é usada acerca dos homens.

5. Linguagem obscena do vosso falar. No grego temos uma única palavra, aischrologia, que significa «linguagem obscena» ou «linguagem abusi­va». Provavelmente se deve compreender aqui por «linguagem abusiva», devido à sua conjunção com a «ira» e a «indignação». O termo grego aischros significa «feio», «vergonhoso», «vil», «aviltante». Esta é a sua única menção em todo o N.T. Algumas traduções preferem traduzi-la por «abuso de boca suja», que retém tanto a ideia de profanação como a ideia de obscenidade, juntamente com a ideia de abuso.

É da abundância do coração que a boca fala. Um homem, em uma explosão de ira, revelará a condição de seu coração, o que pode ser aquilatado pelo tipo de linguagem que emprega. A carnalidade se expressa mediante linguagem imunda, abusiva e iracunda, conforme se pode verificar todos os dias, na sociedade humana.

Notemos a importante adição do trecho de Ef 4:29, após as palavras «palavra torpe», a saber: «...unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e assim transmita graça aos que ouvem». Essa adição mostra o uso que os crentes devem fazer da faculdade da fala, em contraste com a linguagem dos incrédulos.

«Falar é fácil'. 'Palavras, palavras, nada senão palavras'. 'Ele é apenas um falador'. Essas afirmati­vas ilustram a depreciação comum da importância da fala. Porém, haverá coisas no mundo mais poderosas em favor do bem ou do mal, do que as palavras? A fala é a faculdade que distingue o homem dos animais. É o sinal da personalidade. O autoconsciente se manifesta somente pela fala. O pensamento é impossível sem palavras, que enfeixam ideias. As ações são antecedidas pelo pensamento. Conforme diz Heine: 'O pensamento antecede à ação, como o relâmpago antecede ao trovão'. Mas o pensamento é impelido pela sugestão verbal. Toda a cooperação entre os seres humanos depende, para seu sucesso, da comunicação verbal... A solidariedade cultural de um grupo se alicerça sobre uma linguagem comum. O caráter é revelado pela própria maneira de falar, '...porque a boca fala do que está cheio o coração' (Lc 6:45). Assim sendo, Tiago (no terceiro capítulo de sua epístola) não está grandemente equivocado quando dá tanta ênfase à língua». (Easton, referindo-se ao trecho de Tg 3:2).

IV. A Maior lista de Vícios dos Evangelhos Sinópticos

Comparando-se a lista de pecados, em Mt 15:19-20 com aquela exposta por Marcos, nota-se que Marcos (7:21,22) apresenta uma lista mais completa. Mateus se refere a «falsos testemunhos», que Marcos nem menciona; porém, Marcos declara os seguintes pecados: «...avareza, malícia, dolo, lascívia, inveja, soberba e loucura», os quais não foram registrados por Mateus. Portanto, teremos de acompanhar aqui palavra por palavra das que foram empregadas por Marcos, dando-lhes as explicações correspondentes:

1. Maus desígnios. —Os atos perversos se originam dos pensamentos. Alguns relacionam esses «maus desígnios» aos pensamentos pervertidos dos homens que criaram as «tradições» religiosas que suplantaram as leis morais de Deus. Essa ideia talvez esteja incluída, mas a intenção foi de sentido geral, isto é, designa toda a esfera de pensamentos pervertidos que criam, em última análise, os atos pecaminosos. John Gill (in loc.) diz: «Todas as imaginações iníquas, os raciocínios carnais, os desejos pecaminosos e as invenções maliciosas estão incluídos aqui».

2. Prostituição ou fornicação. Pecados sexuais dos solteiros. Essa palavra pode ser sinônimo de «adultério», e também pode significar pecados sexuais em geral; mas, pelo fato de também haver «adultério» na lista, provavelmente o autor sagrado falava do pecado dos solteiros ou da impureza de modo geral, sem qualquer relação ao estado civil das pessoas em questão.

3. Furtos. Apropriação indébita de objetos alheios. Essa ação pode ser praticada de modo violento, por ludibrio ou por desonestidade.

4. Homicídios. Arrebatamento da vida humana intencionalmente, pela própria mão ou por mão alheia. Talvez Jesus quisesse incluir aqui os atos que não vão além da intenção, mas que têm a mesma natureza daqueles que são realizados, conforme se aprende em Mt 5:21,22.

5. Adultério. Esta palavra sempre significa os pecados sexuais dos casados. Novamente é possível que Jesus quisesse incluir aqui a ideia não somente do ato em si, conforme vemos em Mt 5:27,28.

6. Avareza. Amor ao dinheiro; desejo maior pelas coisas materiais do que pelas espirituais, o que resulta em uma vida dirigida por princípios materiais, ou pelo materialismo. Ver o manifesto de Jesus contra o materialismo, em Mt 6:25-34.

7. Malícias. Ódio, atos violentos, maldade.

8. Dolo. Engano ou ludibrio mediante artifícios; desonestidade por palavra ou ação. O caçador procura uma vítima por meio de uma isca.

9. Lascívia. Palavra de derivação incerta no original. Frequentemente tinha o sentido que lhe damos atualmente; mas, no grego clássico, indicava um tratamento violento para com os outros, falta de respeito. No N.T. é usada com a ideia de satisfação sexual sem restrições. A palavra pode incluir a ideia de desvios sexuais.

10. Inveja. Literalmente, «mau olhado» e, portanto, «inveja» (segundo as traduções AA, AC e IB) é a interpretação correta dessa palavra. Trata-se de uma atividade maliciosa, que procura causar malefício ao próximo, especialmente por motivo de inveja de suas riquezas ou bens, e com a intenção de roubar-lhe os mesmos. O trecho de Mt 20:15 se utiliza dessa palavra: «Porventura não me é lícito fazer o que quero do que é meu? Ou são maus os teus olhos porque eu sou bom?» Por conseguinte, o sentido da palavra «inveja», neste caso, é a sua forma mais virulenta.

11. Blasfêmia. Linguagem injuriosa, usada contra Deus ou contra os homens (ver Mt 12:31).

12. Orgulho próprio. A ideia inerente ao vocábulo grego, é a de alguém que ergue a cabeça acima da dos demais. Está em vista um coração altivo contra Deus e contra os homens. Essa é uma palavra rara no N.T. O adjetivo cognato aparece em Rm 1:30 e II Tm 3:2.

13. Loucura. Literalmente, «falta de bom senso»; mas é usada com frequência no sentido de insensatez. Prática de atos ilógicos, desarrazoados. Pode ser realizada por palavras ou por atos. Esse vocábulo também é raro no N.T., porquanto figura somente em II Co 11:1,17,21 e neste trecho do evangelho de Marcos. Em Pv 14:18 e 15:21 é interpretado como um tipo de loucura que se constitui da ausência de temor a Deus, a louca paixão da impiedade.

14. Falsos testemunhos. O evangelho de Mateus acrescenta este pecado à lista apresentada por Marcos. Consiste em dar falso testemunho aos outros ou a respeito de outros, em conversa pessoal ou em tribunal de justiça; mentiras particulares e públicas.

Treze vícios aparecem na lista de Mc 7:21,22, ao passo que Mateus contém apenas sete pecados. A adição de «falsos testemunhos», pelo autor deste evangelho, foi tomada de empréstimo dos dez mandamentos. Outras listas de vícios e virtudes são dadas em Rm 1:29-31 e Gl 5:19-23. Tais listas são mais características da filosofia popular greco-romana do que das ideias religiosas dos judeus.

As Coisas que Contaminam o Homem: Mt 15:20

São estas as coisas que contaminam o homem; mas o comer sem lavar as mãos, isso não o contamina.

«São estas as cousas que contaminam o homem». Jesus repete o seu argumento de forma abreviada e enfática. O Senhor demonstrou diversas coisas que quebram os mandamentos de Deus, como:

1. Maus desígnios, que de algum modo quebram a qualquer dos mandamentos.

2. Homicídios, que quebram o sexto mandamento.

3. Prostituição e adultério, que quebram o sétimo mandamento.

4. Furtos, que quebram o oitavo mandamento.

5. Falsos testemu­nhos, que quebram o nono mandamento.

6. Blasfêmias, que quebram o terceiro mandamento.

Todas essas coisas contaminam o indivíduo, tornando-o indigno de participar da adoração a Deus, pessoal ou publicamente. E essa contaminação é autêntica, porquanto procede do coração, que indica o homem real, interior, que é sede de seu caráter, mas que não tem qualquer vinculação com as coisas externas, como a lavagem ou não das mãos. Jesus fez a antítese entre «mãos» e «coração». As coisas das «mãos» (que são físicas) não contaminam o homem; mas as coisas do «coração» (que são espirituais) é que, sendo moralmente erradas, certamente contaminam o homem. Esse tipo de moralidade é para nós um conceito comum, o qual aceitamos sem fazer qualquer objeção. Porém, para os judeus daquele tempo era uma ideia revolucionária, pois eles viviam sob a influência de indivíduos que enfatizavam, ato o extremo da tolice, as exigências inerentes às leis cerimoniais.

V. Os Vícios como Obras da Carne: Gl 5:18-21

Esses vícios mui naturalmente se dividem em quatro categorias:

1. Pecados sensuais, vs. 19.

2. Pecados de superstição ou religião falsa, vs. 20.

3. Pecados de mau temperamento, vss 20,21.

4. Pecados de várias formas de excessos, vs. 21.

1. Prostituição. A tradução imoralidade ficaria muito melhor aqui, como tradução do termo grego porneia, visto que o termo «prostituição» dá a entender o tráfico comercial do sexo. O sentido original desse vocábulo podia realmente ser traduzido por «prostituição», visto que ela se deriva da raiz grega «porne», que significa «prostituta». No entanto, o substantivo «prostituição» gradualmente foi assumin­do um significado mais lato. O termo básico, no grego, é paralelo a «permeni», que significava «vender», o que alude ao comércio que as mulheres faziam e fazem do sexo. Porém, a tradução imoralidade indica todas as formas de pecado de natureza sexual.

Algumas versões dizem aqui fornicação; mas essa tradução também é inadequada, porquanto atribuí­mos a esse termo a ideia de pecados sexuais anteriores ao casamento. Todavia, a fornicação e a prostituição são tipos de imoralidade. Na realidade, a palavra grega aqui usada pode indicar até mesmo o «adultério», isto é, o pecado sexual entre pessoas casadas com outras. Os chamados «cultos de fertilidade», que havia nos dias de Paulo, glorificavam todas as modalidades de imoralidade, transforman­do-as em atos de devoção religiosa. O dinheiro que as prostitutas religiosas profissionais recebiam de suas nefandas atividades nos templos pagãos, era empre­gado para o sustento e a expansão de formas de adoração idolatra; por isso mesmo era natural que os judeus sempre tivessem associado a idolatria e pecados sexuais de muitas variedades. A idolatria, pois, era encarada como a raiz da imoralidade sexual. Somente na cidade de Corinto, mais de mil prostitutas religiosas infestavam os seus vários templos pagãos. (Ver o trecho de Rm 1:18-27, onde Paulo denuncia abertamente os pagãos, por sua imoralidade). Entre as muitíssimas razões pelas quais não deveríamos participar de tal forma de pecado, destacamos aquela que aparece em I Co 6:13-20 e 10:1-13, a saber, tais pecados são uma violação de nossa relação e de nossa comunhão com Cristo.

2. Impureza. No original grego, é akatharsia, que significa, literalmente, «impureza», «imundícia», refugo, ainda que, figuradamente, indicasse imora­lidade, vício, «impureza nas questões sexuais». Tal vocábulo era empregado para indicar uma ferida suja, na carne, ou a depravação moral do espírito, a iniquidade, embora não necessariamente de ordem sexual. Porém, neste contexto, certamente Paulo tinha em mente as impurezas sexuais praticadas com tantas variedades indefinidas. Os vícios sexuais estão em foco, como a homossexualidade, o abuso das funções sexuais que corrompem o indivíduo a ponto de torná-lo espiritualmente imundo. Essa mesma palavra era utilizada para indicar a «impureza cerimonial», na versão da Septuaginta, do A.T., adquirida mediante o toque em um cadáver, em um leproso, em um animal proibido, etc. As impurezas sexuais nos tornam imundos; e isso é o que Paulo enfatiza aqui, sem especificar nenhuma forma particular de vício.

3. Lascívia. No grego, aselgeia, que significa «licenciosidade», sensualidade exagerada. Está em pauta a conduta assinalada por indulgência sexual irrestrita, por violência e voluntariedade pervertida. No grego clássico tal palavra não tinha, necessaria­mente, uma conotação sexual; porém, visto que ela é agrupada com outros vocábulos que têm tal sentido, e por ter tal sentido comum, nos escritos de outros autores, é altamente provável que Paulo tenha continuado a frisar pecados sexuais, embora agora o faça sob a luz daqueles que são exageradamente sensuais, violentos, que abusam da moralidade pública e privada. No texto de Ef 4:19, vemos que aqueles que destroem completamente a consciência, tendo-a «cauterizada», entregando-se ao «deboche», aos pecados sexuais exagerados (a mesma palavra é usada naquele texto), entregavam-se à «lascívia».

4. Idolatria, vs. 20. Os judeus consideravam esse pecado como o motivo básico da corrupção do homem, aquele que aliena o homem de Deus, servindo, dessa forma, de alicerce para todos os demais pecados (ver Rm 1:18-32).

«Típica da guerra incansável do judaísmo contra a idolatria destaca-se a epístola de Jeremias, que descreve os ídolos como poeira, como ninhos corroídos de morcegos, de aves e de gatos; não sendo deuses sob hipótese alguma, mas antes, obras das mãos dos homens, impotentes e inúteis como um espantalho em um pepinal. A história de Bel e o Dragão amontoa derrisão e ridículo contra Esculápio, o deus pagão da cura, onde Daniel aparece como alguém que abateu sua serpente ao dar-lhe a fórmula prescrita de piche, gordura e cabelos! Os gentios inteligentes admitiam que os ídolos não são os próprios deuses, mas insistiam que os representavam. Os cristãos primitivos replicavam que esses supostos deuses e senhores não são senão demônios (ver I Co 8:4-6 e 10:19-21). A idolatria, portanto, era uma 'obra da carne'. Mediante a idolatria a natureza humana não regenerada cria suas divindades segundo a imagem humana e conforme os desejos humanos, edificando uma teologia capaz de racionalizar a maneira como os pagãos viviam e como tencionavam continuar vivendo. Por todo o decurso da história da humanidade a sua forma mais sutil e perigosa tem sido sempre o estado da adoração ao próprio 'eu'». (Stamm, in loc).

5. Feitiçarias, é tradução do termo grego pharmakeia, alusão ao uso de drogas de qualquer espécie, benéficas ou venenosas. Visto que as feiticeiras e bruxas usavam drogas em seus ritos, essa palavra veio a designar a prática da feitiçaria, da mágica, das bruxarias e de todas as formas de encantamento. A lei de Moisés mostrava-se extremamente severa nesse particular, exigindo a pena de morte para aqueles que praticassem ou participassem de tais coisas. As Escrituras do A.T. e os comentários sobre as mesmas denunciam os egípcios, os babilônios e os cananeus pela prática de todas essas atividades. — (Ver At 13:6; 19:15,19 sobre a «mágica»).

A experiência mostra-nos que tais práticas, embora em muitos casos sejam fraudulentas, não deixam de ter certo poder; e não há que duvidar que espíritos malignos, de vários níveis do mundo espiritual, algumas vezes se envolvem nessas manifestações, outorgando aos homens os seus desejos, mas furtando-lhes o controle sobre o mal, sobre as poluções morais e reduzindo-os a estados mais profundos ainda de inimizade contra Deus. Nos tempos de Paulo essa prática era evidentemente comum na Ásia Menor. É desnecessário é dizer que, sob as mais variegadas formas, a bruxaria continua bem viva no nosso mundo moderno.

6. Inimizades. No grego, echthrai, ou seja, «ódios», «inimizades», uma palavra usada no plural, indicando muitas modalidades de ódios, contra Deus e contra os homens. Essa emoção é o oposto exato do amor, pois, em vez de buscar o benefício e o bem-estar do próximo, busca prejudicá-lo, almejando a sua destruição; e assim fica exibido um caráter profano, visto que Deus é amor. As inimizades geram as hostilidades de todas as formas.

7. Porfias. É a tradução do vocábulo grego «eris», «desavença», «contenda». Trata-se da atitude mental hostil, que cria problemas os mais inesperados entre as pessoas, resultando em dissensões e divisões. É a mesma coisa que a «discórdia», a «querela», a «briga». É caracterizada essa atitude pela ambição, desatenção, enfeiamento e derrisão.

Mais corretamente, facções. Derivado de erithos, «servo alugado». Erithia era, primariamente, «tra­balho por contrato» (ver Tobias 2:11).

8. Ciúmes. No grego, «zelos», variegadamente traduzida por «emulações», «invejas». Mas o termo também tinha um sentido positivo, como «zelo», «ardor». Porém, é óbvio que, neste caso, está em foco um desejo intenso pela vantagem pessoal, com a degradação das realizações e qualidades dos outros. Naturalmente, a inveja é uma forma maligna de egoísmo, de par com uma avaliação inferior sobre o valor alheio, que deseja o mal ao próximo, e não o seu bem. Nos escritos clássicos podia significar uma paixão nobre, uma emulação que impulsionava à obtenção de coisas melhores, um sentimento ardoroso para com outrem, em contraste com o vocábulo «phthonos», isto é, «inveja». Porém, até mesmo nesses escritos clássicos por muitas vezes esses dois termos gregos são meros sinônimos.

9. Iras. No grego, thumoi, «iras», «raivas», uma palavra usada no plural. Esse termo indica a «alma», o «espírito», o «coração», e daí se derivaram as ideias de «coragem», de «mau temperamento», de «ira». É bem provável que Paulo quisesse destacar aquelas explosões de ira, que criam sentimentos de hostilida­des contra nossos semelhantes. Também podia indicar «ardor» ou «paixão», mas a simples ira é o significado natural aqui. Tal vocábulo era usado tanto para Deus como para os homens (ver Ap 14:10,19; 15:1, etc). Indicava tanto a indignação divina como a fúria de Satanás (ver Ap 12:12). Apontava para a ira dos homens (ver Lc 4:28; At 19:28; II Co 12:20 e Cl 3:8). Essa emoção é causa de muitos conflitos pessoais, domésticos e religiosos. É o contrário da ação benigna do Espírito Santo. Tal emoção solapa e destrói o espírito de amor cristão. Transforma em adversários aqueles que deveriam amar-se mutuamente.

10. Discórdias, no grego eritheiai, que quer dizer «facções», «espírito partidário». Trata-se de uma das formas pela qual se manifesta o egoísmo, o que causa divisões e partidarismos (ver Rm 16:17). Originalmente, esse vocábulo indicava a ideia de «trabalhar em troca de salário»; mas posteriormente degenerou em seu sentido, passando a indicar a feitura de algo com propósitos egoístas, com espírito de facção. Na passagem de Fp 2:3 aparece como aquilo que faz oposição direta à mente de Cristo. É a «explosão egoísta», que provoca contendas e divisões.

11. Dissensões. No grego original é dichostasiai, ou seja, «sedições», «levantes». Podiam ser de natureza política, social ou particular. Paulo quis indicar aqui as várias querelas entre irmãos, que ameaçavam a unidade do corpo de Cristo. (Comparar com o trecho de Rm 16:17, onde Paulo nos adverte contra as dissensões, que são provocadas por aqueles que servem a si mesmos, e não a Cristo Jesus).

12. Facções, no grego, aireseis, cuja tradução mais literal seria «heresias», mas que, neste trecho bíblico, bem provavelmente indica «espírito faccioso», por­quanto sua aplicação a doutrinas «não ortodoxas» é de desenvolvimento posterior, que não se encontra nas páginas do N.T. A raiz do termo grego indica a ideia de «escolher», pelo que também airesis é uma «escolha», uma «preferência». Na linguagem filosófi­ca, denotava a tendência demonstrada por uma escola de pensamento qualquer. As diferenças de opinião podem ser úteis ou destrutivas, dependendo de sua natureza tão somente. Porém, as ideias e as ambições rivais tendem para a formação de partidos ou divisões no seio do cristianismo. Essa é a atitude que Paulo condena neste ponto. Paulo condena aquela rivalida­de baseada no egoísmo, o que produz tais divisões. Ver o trecho de At 24:14, onde esse vocábulo denota um «grupo» ou «seita». Na passagem de At 24:5, essa palavra indica a «seita dos nazarenos». Já em Mart. Pol. Epil. 1, esse vocábulo é empregado para designar uma «heresia», tal e qual o termo é usado hoje em dia. Porém, isso já depois do período apostólico, depois da escrita do N.T. (ver I Co 9:19 e II Pe 2:1, quanto a outras passagens neotestamentárias que têm essa palavra).

13. Invejas, (v. 21). A palavra grega é phthonoi. Deve-se notar o plural que denota várias modalidades de desejos invejosos. Tal vocábulo também podia significar «malícia» e «má vontade». Todos os homens estão familiarizados com as ações malignas provoca­das pelos homens, quando se deixam arrastar por tais paixões. Os trechos de Mt 27:18 e Mc 15:10 dizem que por inveja é que os adversários do Senhor Jesus o entregaram a Pilatos.

«É a dor sentida e a malignidade concebida, à vista da excelência ou da felicidade. É a paixão mais vil e a menos passível de cura, dentre todas quantas desgraçam ou degradam a alma decaída (ver sobre Rm 13:13)». (Adam Clarke, in loc).

«Uma aflição inquieta tortura a mente, entristecida ante o bem alheio, porque alguém se encontra em igual ou melhor situação». (John Gill, in loc).

14. Bebedices. No grego, é methai, que significa «bebida alcoólica» e «alcoolismo», causado pelo uso excessivo de bebidas. — A forma plural bem provavelmente indica aquilo que realmente se verifica, a saber, a «repetição» do estado de bebedeira. A bebedeira é um excesso extremamente prejudicial ao corpo, o que seria suficiente para levar essa condição a ocupar lugar entre as obras da carne. Porém, conforme é fato bem conhecido, o alcoolismo também leva o indivíduo a diversos outros vícios, porquanto remove as inibições naturais, deixando-o livre para praticar coisas degradantes. Essa circuns­tância faz da bebedeira algo ainda mais culposo, como uma das manifestações carnais. As obras da carne, mencionadas no décimo nono versículo deste capítulo (vários excessos de ordem sexual), são encorajadas pelo alcoolismo, conforme é o caso das «farras», o último vício aludido nesta impressionante lista.

15. Glutonarias. Originalmente, essa palavra indica­va, no grego, um cortejo festivo, em honra ao deus pagão do vinho, Dionísio. Era uma refeição e um banquete festivos; mas com frequência seus partici­pantes perdiam o domínio próprio e tudo se transformava em ocasião de glutonaria e bebedeiras, de orgia das piores. Assim essa palavra veio a indicar «glutonaria» e «orgia», sendo possível que a lista de vícios, preparada por Paulo, quisesse nos levar a compreender ambos esses sentidos da palavra. As traduções modernas escolhem um ou outro desse significado.

Dioniso (Baco) era adorado com os excessos sexuais próprios desse culto, com a bebedeira, com a glutonaria, com os excessos; e os que tais coisas praticavam racionalizavam, tal como se verifica hoje em dia, que nada se fazia de errado com tais atos, apelando para uma ou para outra desculpa. A «adoração ao deus» era boa, segundo pensavam, a despeito das maldades que daí resultavam. O conceito de «liberdade» era identificado com o «direito» de participar de tais festividades, acompanhado da imunidade da censura pública. E hoje em dia, por semelhante modo, muitas pessoas identificam a «liberdade» com o direito de praticar excessos, e ainda exigem os seus «direitos» de fazerem o que bem lhes pareça. Essa atitude tem invadido até mesmo a igreja cristã (ver I Co 11:21), mas Paulo via uma cura para tais excessos com a intervenção decisiva do Espírito de Cristo, em substituição ao espírito do deus Dionísio.

Lista Representativa

«cousas semelhantes a estas». Paulo não afirma ter apresentado uma lista completa de vícios que condenam a alma. Antes, expõe-nos uma lista representativa, uma indicação dos tipos de coisas que destroem a vida espiritual.

Consequências da Prática dos Vícios

Não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam. E usado aqui o particípio presente (no original grego) do verbo «praticar», mui provavelmen­te a fim de indicar uma ação contínua. Assim sendo, a ideia de «prática» destaca o sentido almejado. Vinculado ao artigo definido como está, o particípio presente indica «aqueles que se entregam à prática». Se um ato ocasional qualquer de tais vícios, impedisse de ser alguém membro do reino celeste, virtualmente ninguém estaria qualificado para fazer parte do mesmo. Por outro lado, o sistema da graça divina, longe de encorajar a prática do pecado, ou de desculpá-lo, depois de haver sido praticado, assevera claramente que o poder do Espírito Santo deve ser tão real que a atitude do vício seja substituída pela atitude própria de Cristo. A totalidade da mensagem distintiva do cristianismo depende da realidade da presença do Espírito de Deus no íntimo do crente, do que resultam a conversão genuína e a transformação moral. Ora, se essa transformação for real, então não haverá a prática de tais vícios. O crente desfrutará de vitória sobre toda a forma de vício. Em caso contrário, será um crente somente de profissão doutrinária, e não como uma realidade espiritual. Essa é a crua e dura verdade que o apóstolo dos gentios ensina aqui.

Reino de Deus. Neste ponto, essa expressão é equivalente a vida eterna conforme também se dá com frequência no evangelho de João. Não está em foco algum reino político a ser estabelecido quando da «parousia» (segundo advento de Cristo). Mas essa «vida eterna», sem dúvida alguma, é vista como algo que será inaugurado pela «parousia».

VI. Vícios de II Tm 3:2-4. As Características dos Homens dos Últimos Dias

1. Egoístas. No grego é philautos, que literalmente poderia ser traduzido como «amantes de si mesmos». Aristóteles (de Repub.), refere-se a esse defeito de caráter mui corretamente, ao dizer: «Não se trata tanto do amor próprio, mas de amar indevidamente, tal como o amor às possessões materiais». Portanto, trata-se de um mal, de um vício. O fato de que devemos «amar ao próximo como a nós mesmos» mostra-nos que o amor próprio é natural, algo perfeitamente esperado. Mas é quando amarmos a nós mesmos, com exclusão do próximo, que teremos cometido o mal aqui condenado. Essa palavra se encontra somente aqui, em todo o N.T., sendo uma das cento e setenta e cinco palavras peculiares às «epístolas pastorais».

2. Avarentos. No grego é philarguros, que literalmente significa «amantes da prata», isto é, «amantes do dinheiro». Esse vocábulo é usado somente aqui e em Lc 16:14, em todo o N.T. O «amor ao dinheiro» é uma forma de «avareza», que, por sua vez, é uma forma de idolatria (ver I Tm 6:10 quanto ao «dinheiro» como uma das raízes de todos os males).

Os pequenos deuses. Até mesmo os homens que não fazem e nem servem a ídolos de madeira, de pedra ou de metal, têm os seus deuses, que são eles mesmos ou certas coisas. O indivíduo egoísta, faz do seu próprio «eu» um deus. E o cobiçoso tem como seu deus o dinheiro, as possessões materiais. Há também aqueles cujo deus são os prazeres carnais (ver os versículos quarto a sexto de II Tm 3 e também Ef 5:3). O amor ao próprio «eu» e o amor ao dinheiro servem de substituições ao amor a Deus, fazendo do próprio «eu» o centro do universo; e isso é idolatria.

3. Jactanciosos. No grego é alazon, que significa «presunçoso», «arrogante». Sua raiz é «ale», que quer dizer «perambulação». Era palavra usada para indicar a atitude mental enlouquecida ou distraída. Os «vagabundos» geralmente eram indivíduos de vil caráter, fingidos, impostores; e assim a forma verbal dessa palavra veio a indicar os «fingidos», os enganadores; e, em sua forma nominal, veio a indicar os «jactanciosos», que proferiam coisas altissonantes sobre eles mesmos, mas que era apenas pre­tensão (ver o trecho de Rm 1:30 quanto a essa palavra que aparece na lista de vícios ali existente). Em todo o N.T. aparece somente em Rm 1:30 e nesta passagem.

4. Arrogantes. No grego temos o termo uperephanos, que significa «altivo», «orgulhoso». Na literatura bíblica tal palavra é usada somente em mau sentido, ainda que nos escritos clássicos algumas vezes figurasse com o sentido de «magnificente», «nobre». Sua forma verbal significa «brilhar mais que algo», «mostrar-se conspícuo». Aqueles homens, pois, se fariam conspícuos através do louvor próprio, desconsiderando a outros que, supostamente, seriam menos importantes do que eles mesmos. Esse vocábulo aparece por cinco vezes nas páginas do N.T., a saber, aqui e em Lc 1:51; Rm 1:30; Tg 4:6 e I Pe 5:5.

5. Blasfemadores. No grego é empregado o termo blasphemos, aquele que profere palavras abusivas e degradantes. Sua forma verbal pode significar «falar com profanação», como quem degrada algum objeto sagrado. No presente contexto, não há que duvidar que devemos pensar nessa significação. Os gnósticos diminuíam a pessoa de Cristo e a doutrina cristã, a fim de exporem suas doutrinas; por conseguinte, eram indivíduos blasfemos, mesmo que assim não tencionassem ser. Essa palavra também figura por cinco vezes no N.T., aqui e em At 6:11,13; I Tm 1:13; II Pe 2:11.

6. Desobedientes aos pais. (Ver o trecho de Rm 1:30 que também tem esta expressão numa longa lista de vícios. A falta de amor aos pais, além de total desconsideração para com sua autoridade, é própria do «paganismo»; mas igualmente caracteriza aqueles que repelem a autoridade de Deus, na «apostasia». (Comparar com I Tm 1:19 onde se fala sobre os «parricidas e matricidas»). Na passagem de Tt 1:6 é exigido dos «pastores» que eles criem seus filhos sob sujeição.

7. Ingratos. No grego é acharistos, «sem gratidão», forma privativa de charidzomai, «ser grato», «ser agradecido». Esse pecado também é atribuído aos pagãos, em Rm 1:21. A apostasia, portanto, será o levantamento do espírito pagão mais depravado, que não terá respeito por qualquer objeto sagrado, e que se mostrará totalmente deletério em seus intuitos e em sua atuação. Nas páginas do N.T., essa palavra só se encontra aqui e em Lc 6:35.

8. Irreverentes. No grego é anosios, que quer dizer «sem santidade», ou seja, «iníquo», sem restrição na maldade praticada. Temos aqui a forma privativa de «osios» que significa «sancionado», «aprovado pelas leis da natureza», e que fazia contraste com ieros, que significava «santo».

9. Desafeiçoados. No grego é astorgos, isto é, «sem afeição natural», palavra usada somente aqui e em Rm 1:31, onde o apóstolo descreve os pagãos apóstatas (ver Rm 1:31). Trata-se da forma privativa de «stergo», verbo que indica «amor mútuo» entre pais e filhos, entre reis e seus súditos. A apostasia, que é a rebeldia descontrolada contra Deus, arruína até mesmo os sentimentos humanos naturais, transformando as pessoas em subseres humanos. Tal vocábulo se encontra somente aqui e em Rm 1:31.

10. Implacáveis. No grego é aspondos, que também aparece na lista de vícios de Rm 1:31, mas em nenhuma outra porção do N.T. Essa palavra significa «irreconciliável». Trata-se da forma privativa de «sponde», «libação», algo oferecido aos deuses. E visto que tal palavra geralmente estava vinculada à feitura de tratados, naturalmente, veio a envolver a ideia de reconciliação, em que duas partes interessadas mostram o desejo de viver em paz, expressando tal desejo por meio de um voto. Mas algumas pessoas, invadidas por grande amargor de espírito, e sem respeito por seus semelhantes, não se sentem nunca aplacadas.

11. Caluniadores. No grego é usado o termo diabolos, um dos títulos dados a Satanás, que destaca seu caráter de «caluniador» (ver II Tm 2:26). Estão aqui em foco as pessoas que procuram prejudicar a seus semelhantes com palavras cortantes, que normalmente envolvem o exagero nas informações, distorcendo a verdade até o ponto da mentira desavergonhada. Tais pessoas não somente entram em choque com os seus semelhantes, mas também gostam de propagar as dissensões, lançando uns con­tra os outros. Promovem querelas devido à sua malignidade. Essa palavra figura por 38 vezes no N.T.

12. Sem domínio de si. No grego temos akrates, que significa «sem autocontrole», inclinados para a «autoindulgência». Essa palavra é a forma privativa de kratos, isto é, «poder». Portanto, estão em pauta os que «não têm o poder de controlar a si próprios». A perversão moral leva o indivíduo a esse extremo, porquanto essa perversão leva o homem a formar hábitos tão arraigados que sua fibra moral é destruída. O resultado final é um «escravo» das paixões e concupiscências, um homem «viciado» em muitas práticas daninhas. Essa palavra grega é usada exclusivamente aqui, em todo o N.T.

13. Cruéis. No grego é anemeros, ou seja, «selvagem», «brutal». Indica alguém privado de emeros, que significa «manso», «domesticável» (no caso de animais irracionais). Este é o único lugar, em todo o N.T., onde essa palavra é empregada, pelo que se trata de uma das cento e setenta e cinco palavras dessa categoria, nas «epístolas pastorais».

14. Inimigos do bem. No grego temos uma única palavra, aphilagathos, forma composta da forma privativa de «amar» e da palavra «bom». Portanto, são indicados aqueles que não têm amor natural pelo que é bom. Todavia, isso é deixado indefinido neste ponto, talvez indicando o «bem de todas as espécies», — que tem origem em Deus, que é o «summum bonum». Tais indivíduos farão oposição a Deus e a todas as suas manifestações. Essa palavra se encontra somente aqui, em todo o N.T, embora sua forma positiva, isto é, «amantes do bem», se encontre em Tt 1:8, como sua única outra ocorrência. Ambas as formas aparecem entre os cento e setenta e cinco termos peculiares das «epístolas pastorais».

15. Traidores. No grego é prodotes, que figura por três vezes nas páginas do N.T., isto é, aqui e em Lc 6:16 e At 7:52. Significa exatamente isso, «traidor», «traiçoeiro». Em Lc 6:16 tal termo alude a Judas Iscariotes, o principal apóstata do N.T.

16. Atrevidos. No grego temos propetes, usado somente aqui e em Atos 19:36, e que se refere a uma pessoa «ousada». Deriva-se de uma raiz que significa «cair para diante», «inclinar-se para a frente». Sua forma verbal, propipto, significa «cair para a frente» ou «lançar-se para a frente». Esse atrevimento pode ser nas palavras ou nas ações. São pessoas ousadas quando se entregam à maldade, visto que estão debaixo da influência de paixões descontroladas (ver os trechos de Pv 10:14; 13:3 e Siraque 9:18).

17. Enfatuados. No grego é tetuphomenos, forma participial perfeita de tuphoo, «orgulhar-se», «mos­trar-se arrogante». Essa palavra é usada somente aqui e em I Tm 6:4, ou seja, é um dos cento e setenta e cinco vocábulos que figuram somente nas «epístolas pastorais». «Tuphos» significa «fumaça», «nuvem», «neblina». Tais indivíduos, pois, andam «nebulosos de orgulho». Seu bom senso está obscurecido pelo orgulho, por seu senso de elevada importância pessoal.

18. Amigos dos prazeres, mais do que amigos de Deus. No grego é philedonos, forma composta encontrada exclusivamente aqui, em todo o N.T. O autor sagrado das «epístolas pastorais», muito aprecia as formas compostas. Está aqui em foco o «hedonismo», que indica aquela filosofia que exalta os «prazeres» como o sumo bem e o alvo de toda a existência. Alguns indivíduos religiosos, infelizmente para eles, se deixam dominar por essa filosofia; e mesmo que não o façam em seu credo, fazem-no como prática da vida diária. Vejamos os contrastes: no segundo versículo, «amantes de si mesmos» e «amantes do dinheiro»; no terceiro versículo, «inimi­gos do bem»; e agora, «amigos dos prazeres», mas «inimigos de Deus». (Ver igualmente II Tm 2:3, onde se lê «Participa dos meus sofrimentos...»; I Tm 6:18, «...pratiquem o bem...»). Quanto àqueles indivíduos, cujas atitudes são previstas, os «prazeres» se tornarão o seu deus. No mundo de hoje em dia não há deus mais servido do que esse, pois seus adoradores são bilhões. Ver a passagem de I Tm 5:6 quanto ao fato de que a pessoa que vive «nos prazeres» embora viva, está morta. Ali a alusão é aos pecados sexuais.

Não há que duvidar que o aspecto sexual desses «prazeres» faz parte do pensamento do presente versículo, ainda que sua referência seja mais ampla do que isso. O sexto versículo deste capítulo mostra-nos que vários dos mestres falsos eram sedutores que também se deixavam seduzir, eram prostitutos amadores, evidentemente se prostituindo com ele­mentos femininos das igrejas locais. Mui provavel­mente eram os libertinos gnósticos. É interessante que, normalmente, a ética do gnosticismo se inclinava para pontos extremos, ou para o lado da libertina­gem, ou para o lado do ascetismo severo. Os trechos de I Tm 4:3 e Gl 2:16,17,20 e ss se referem ao tipo de gnosticismo ascético. Os seus defensores criam que o corpo é a sede do pecador, porquanto participa da matéria, que seria totalmente incapaz de redenção. Razões Apresentadas Como Desculpas pela Imoralidade

1. Aqueles que preferem levar vidas imorais, sempre podem encontrar razões para assim agirem. Os mestres gnósticos procuravam justificar suas vidas pútridas, declarando que o corpo físico por si mesmo é um mal. Segundo diziam, o corpo participa da matéria, que é má em si mesma; e, assim sendo, não importaria o que um homem faz através de seu corpo. Na verdade, segundo diziam eles, é conveniente que o homem abuse de seu corpo, porquanto esse abuso contribui para a destruição do corpo; e essa destruição é um bem, pois assim o espírito se liberta.

2. Hoje em dia, como sempre sucedeu, é comum ouvir-se a corrupção ser definida em nome da liberdade. Alguns indivíduos se consideram livres, quando praticam qualquer ato maligno que desejam fazer. São esses os que andam ao contrário, dependurados de cabeça para baixo no teto. Jactam-se daquilo que praticam de vergonhoso; sua liberdade é a pior espécie de escravidão.

Os indivíduos viciados como que buscam derrubar a Deus de seu trono, preferem fazer de coisas temporais, e até mesmo pecaminosas, o grande objetivo de sua vida. Esquecem-se os tais que Deus é o summum bonum, a fonte originária de toda a vida, como também o seu alvo colimado (ver I Co 8:6).

VII. O Vício do Ódio: II Jo 2:9

Aquele que diz estar na luz, e odeia a seu irmão, até agora está nas trevas.

O veneno do ódio. «A pessoa que não ama não sabe que não é amorosa; imputa a outros as falhas de si mesma. Também não sabe o desastre inevitável a que sua maneira de andar a leva. Em certo sentido, anda nas trevas, porque as trevas a cegaram; em outro sentido, ela está cega, porque tem andado nas trevas. Aquele que se recusa a ver, finalmente não pode mais ver. O ódio constante destrói progressivamente a capacidade para o bem. Finalmente (segundo fica implícito no décimo versículo), faz outros tropeçarem. O ódio enerva outros e os faz revidarem; a vindita com frequência prejudica aos inocentes; a vingança envenena os motivos que se veem nos outros; a hipocrisia do crente que diz que anda na luz, mas odeia a seu irmão, é um opróbrio para a igreja, repelindo ao inquiridor sincero e edificando aos cínicos. O ódio pode prejudicar os tecidos do corpo e induzir enfermidades. Um médico diz que meia dúzia de palavras amargas fazem a própria pepsina do estômago perder seu efeito. O ódio desequilibra e inflama a mente. Subverte o pensamento, transfor­mando-o em paixão e mina o julgamento inteligente. Um comentador fez a seguinte paráfrase: 'ele... anda nas trevas; não pode pensar direito'» (C.H. Dodd, in loc).

Assim como o verdadeiro amor consiste no altru­ísmo verdadeiro, assim também o ódio consiste no egoísmo agudo. Quase todos os problemas humanos podem ser traçados até alguma forma de egoísmo. O amor produz harmonia; o ódio tem na discórdia a sua própria natureza. A ciência médica sabe bem que nossas emoções afetam a saúde. Aquele que odeia estará, naturalmente, sujeito a várias doenças, porquanto seu sistema físico entrará em mal funcionamento. Até mesmo as enfermidades, como câncer, podem ter causas psíquicas.

VIII. O vício da Idolatria

1. Todos os homens são idolatras! Alguns adoram ídolos, imagens, figuras de madeira ou metal, etc. Mas todos os homens, praticamente, adoram o dinheiro ou a si mesmos.

2. A idolatria, com frequência, está vinculada ao adultério, e isso é uma excelente colocação, pois a idolatria é o adultério espiritual, por causa do que os votos mais sagrados são quebrados e desprezados.

3. A idolatria é a alteração proposital da imagem de Deus, na imagem de alguma coisa, material ou mental, para em seguida haver a adoração dessa nova imagem. É bem possível que certas imagens representem forças satânicas e que, através dessas imagens, essas forças estejam recebendo honra­das que pertencem — exclusivamente — a Deus. Também podemos levantar ídolos no próprio coração (ver Ez 14:3,4), mesmo que não os guardemos em nichos, em nossos lares.

4. A idolatria é uma abominação (ver I Pe 4:3), e não traz qualquer proveito (ver I Juí. 10:14).

5. Deus aborrece a idolatria (ver Jr 44:4), sendo uma das grandes características daqueles que se olvidam de Deus (ver Jr 18:15), e, por conseguinte, que se desviam dele (ver Ez 44:10).

6. Por causa da idolatria, muitos se esquecem de Deus totalmente (ver Jr 16:11).

7. Pecadores obstinados são entregues por Deus à idolatria (ver Dt 4:28).

8. A idolatria exclui o indivíduo da glória celeste (ver I Co 6:9,10).

IX. O Mundanismo: I Jo 2:15

Não ameis o mundo, nem o que há no mundo. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele.

O amor, é a força mais poderosa do mundo. Todos os homens amam alguma coisa. Até o egoísmo é um tipo de amor, isto é, o amor excessivo do próprio ser, que existe sem ser contrabalançado pelo amor a outros. A grande maioria dos homens ama o mundo bem mais do que o bem, a justiça, e a espiritualidade.

O amor intenso. A verdadeira espiritualidade exige um intenso amor às coisas espirituais. Mas, o homem comum, só ama intensamente o mundo físico e material. Os objetos deste amor são três:

1. Coisas que pertencem as sensações físicas, a concupiscência da carne. O sexo é o rei de quase qualquer lugar.

2. Os desejos dos olhos. Os homens procuram as vantagens do mundo, as coisas materiais, possessões, riquezas, confortos, abundância física. Os homens têm uma cobiça gloriosa, para a qual, gastam tudo que têm.

3. A soberba da vida: posições na sociedade (ou na igreja!), fama, glória, vantagem social, poder político, exaltação.

A Natureza dos Vícios Mundanos

1. Transgridem contra a lei de Deus (ver I Jo 3:4).

2. Possuem conexões metafísicas, a saber, a criação e estimulação de Satanás e suas forças perniciosas (ver I Jo 3:8). O pecado jamais é meramente o ato de um indivíduo isolado.

3. Não fazer o que devemos, constitui um vício (ver Tg 4:17).

4. A falta de fé inspira os vícios (ver Rm 14:23).

5. Os vícios se originam no coração do homem (ver Mt 15:19).

6. Conduzem à morte espiritual (ver Rm 6:23).

 

Bibliografia: I IB HA LAN NTI

 

FONTE: EBD AREIA BRANCA

 

 

Lição 13